quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
"Reminiscências", por Edney Duarte Fagundes
Me vejo lendo, há muitos anos passados um gibi do incrível Hulk. Por certo que devo ter tido outras leituras mais amenas ( tipo Walt Disney ) antes dessa visão, embaçada pelo tempo e, como em certo romance do Machado de Assis, alterada significativamente pelas transformações ocorridas no “eu” leitor, que obviamente, em muito difere do eu que ora escreve.
O inusitado, no que passo a narrar, é que tudo o mais me foge – a história, conflitos, soluções, etc. – restando-me unicamente a reprimenda representada pelos olhares mais do que irônicos de meus irmãos mais velhos. E não me recordo de quatro crianças em uma sala ou um quarto de uma modesta casa de madeira. Não. Vejo-os com as rostos de agora; e as gargalhadas de agora, incrustadas naqueles corpos pequenos, me diminuem ainda mais do que deve ter reduzido à época.
Neste momento pensei em fazer uma digressão sobre o episódio e a luz de um explicar sensato, fundado em observações criteriosas e portanto empíricas, considerá-lo mister na definição de minhas relações com a linguagem, principalmente no tocante ao seu uso mais imediato e direto: a fala. Sim, porque houve(ram) - plagiando Raul Seixas: eu cuspo na regra! – momentos em minha vida em que acreditei firmemente que a minha única possibilidade de comunicação neste, e com este, mundo se daria pelo uso da palavra escrita.
Mas retomemos a sala/quarto na longínqua Bento Gonçalves, nem tanto fisicamente mas apartada pela distância temporal, lá estão as crianças sentadas no chão – talvez todos lendo gibis, imagino – quando, de repente, uma delas tem uma dúvida semântica e pergunta o significado de uma palavra. Mas não obtém resposta. Só risos, galhofas, gargalhadas ...
Sobre os gibis, minhas primeiras leituras, os li de todos os tipos, com alguma predileção pelos super-heróis problematizados, com identidade secreta e psicologicamente afetados por envolvimentos amorosos e de outras relações humanas, perdidas no meio-tempo em que não são supers – apartados do individual e comprometidos com o bem comum; como os políticos.
Imagino como seria hoje.
Aquele bando de guris. De calções e chinelos de dedo. Não direi a marca, apenas direi que era popular, e, como a sociedade ainda não era tão consumista, se gastava a sola até o fim, trocando as tiras quando necessário. Alguns poucos de calça e sapato ou tênis, também não digo a marca, mas só existia uma. Muitos remendos nos joelhos. A pilha de gibis nos braços. Procurando determinadas edições, ofertando outras. Trocando, comprando, vendendo. È bem verdade que os cinemas eram na rua. Que shopping abrigaria dantesca cena em frente à “suas” salas de cinema?
A nostalgia empresta ao passado um brilho que certamente não tinha, mas não importa, quando alguma coisa detém algum poder não nos cabe contestá-lo.
Dos gibis, ou melhor, conjuntamente com eles, fiz muitas incursões à biblioteca do grupo escolar. Lá conheci a Emília, o palhaço Arrelia , alguns garotos em férias. Aventuras, Andersen, Grimm, lendas, poderes; o bem e o mal, assim, bem delimitados. Aqui cabe outra digressão. Teria sido sempre traumática minha relação com a leitura? Sim, porque desenvolvi um senso por demais crítico à todas minhas más ações. Apenas lhes digo que não foram poucas e nem boas. Não cabe aqui declinar sobre elas. Talvez em outro capítulo. Talvez.
Lembro também dos álbuns de figurinhas, muito embora a imagem nem sempre seja considerada leitura, e as poucas legendas com nomes de heróis ou jogadores de futebol não possam também merecer tal rótulo.
A esta época vivíamos literalmente na rua, sem nos preocuparmos e sem que nossos pais se amolassem com a nossa liberdade em tempos de ditadura. A criminalidade, se existia, passava ao largo: coisa de cidade e gente grande. Mas havia um jogo de bater com as mãos nas figurinhas para, uma vez virando-as, conquistá-las, obrigando o outro competidor a investir mais para continuar no jogo. Eu havia desenvolvido uma técnica de movimentos rápidos com a mão em curva que me tornara imbatível. Pena que alguns garotos não estão preparados psicologicamente para serem derrotados. Pelo menos não em público, o que me obrigava a muitas vezes optar por uma saída rápida e estratégica em prol de minha saúde. Me arrisco a dizer, muito embora alguns possam considerar uma atitude covarde, que desenvolvi também uma habilidade quase atlética no ato de me por em fuga, estrategicamente.
Deixamos Bento Gonçalves por culpa dos estudos de meu irmão mais velho que terminara o científico e carecia de uma faculdade. Nos instalamos então em um galpão na casa de um tio em Alvorada. Nesta época ...
Este parágrafo deve ser lido e esquecido, apagado até, afinal, de que serviria na minha formação literária, na minha formação profissional, a infame leitura que aqui tratarei? Tinha algumas em preto e branco e outras coloridas. Artistas brasileiros, italianos. E enredos sobre os quais nem lembro, mas sei que os devorava. Assim como os gibis eu comprava, trocava, emprestava. Lembro de uma morena – na lembrança linda e de longos cabelos negros – que me cedia por empréstimo, porém uma de cada vez, as suas fotonovelas preferidas.
No galpão ficamos pouco, só até se arranjar, o que não demorou. A casa comprada em Alvorada estava hipotecada e tivemos de abandoná-la. No tempo em que vivi nesta cidade só me lembro das leituras do parágrafo anterior. Como não leitura sei que eu não lia os temas de casa. Não lia e não fazia. Nem sei como posso estudar Português. Havia um professor dessa matéria que sempre me chamava, no primeiro período das segundas-feiras, e cobrava o cumprimento da lição. Acho que ele tinha esperanças de que eu me ajeitasse, pois persistiu assim até o fim do ano, sem no entanto lograr êxito.
Na oitava série, que estudei em Porto Alegre na Vila Jardim, apesar de no início
do ano ainda morar em Alvorada, me dispus a caminhar seis quilômetros de ida e mais seis de volta para baixar o dinheiro da passagem. Com esta economia eu pude voltar a comprar gibis. Usados, de preferência. Ler mais por menos. Até hoje é assim. Minha passagem pela feira do livro este ano rendeu um livro do Stanislaw Ponte Preta, um de Heyne e um do Suskind, todas leituras transversais, fora do foco das melhores obras de seus autores e longe dos holofotes; mas bons, digo-lhes porque já os li e - não me considerem mesquinho com a minha leitura - baratos: de balaio. Também comprei um livro sobre Português e Literatura no segundo grau e o Prazer das Palavras do Cláudio Moreno.
O segundo grau o fiz em uma escola técnica e nem me lembro de literatura. Por certo que teve e que eu fui aprovado. È tudo o que posso dizer. Nestes estudos deveriam ter me dado, no mínimo, dois diplomas, tamanho foi o tempo que levei para me formar.
Durante o segundo grau tomei contato com uma outra leitura: a Bíblia. Isto ocorreu quando eu estava no quartel. Eu passava a semana inteira lá - ir para casa daria muitos gastos com passagem - conheci umas pessoas que liam-na e eram pessoas legais, segui-os.
O velho testamento me pareceu muito chato, assim como outras passagens que não fossem parte do Novo Testamento. Este sim me agradou deveras. As parábolas, o sermão da montanha, puxa, que divina forma/força de/ao escrever, não é a toa que se tornou o livro mais lido do mundo.
È de bom grado avisar que fui católico desde cedo, fiz comunhão e crisma, o que eqüivale a dizer que textos ligados a religiosidade já haviam me atingido antes de eu chegar ao exército brasileiro.
Fui muito bem na leitura do Novo Testamento e até me aventurei a acompanhar umas duas reuniões com os outros soldados em uma casa em que se falava sobre Deus, sem ser uma igreja. Uma espécie de grupo de jovens. Ir até lá, se encontrar, conversar, jogar passatempos de mesa, até aí realmente me sai bem. O problema começou quando durante os encontros cada um devia dar seu testemunho de um momento em que Deus se fizera presente em sua semana.
Sem encontrar de fato manifestações do Senhor em minha vida e sem a capacidade de mentir, como pediram meus amigos – diga qualquer coisa boa – tive de abandonar o grupo. Acho que isso também me afastou da Bíblia, nunca mais a li.
Aqui temos um grande hiato e me encontramos novamente lendo ao cursar o Contos de Oficina 7, da PUC, ministrado pelo Luiz Antônio de Assis Brasil. Um dos contos que publiquei nessa antologia já havia sido escrito anteriormente, em um dia de chuva, na beira da praia de Cidreira.
Este curso não sugeria leituras, mas a esta época comecei a ler contos, muitos da série Para Gostar de Ler, do João Gilberto Noll, do Machado de Assis, do Josué Guimarães, do Luiz Fernando Veríssimo, do Rubem Fonseca, do João Antônio e tudo que tivesse a palavra contos.
Depois li os americanos como O. Henry e Breat Hart, os franceses como recomendou Gorki em seu livro Como Aprendi a Escrever e, principalmente os russos. Procurei me ater ao conto porque nunca fui um leitor de fôlego. Li Contos Cubanos, Contos Uruguaios, Contos Argentinos; a maioria das vezes em coletâneas.
As opiniões do Assis Brasil sobre o que eu escrevia sempre foram elogiosas e creio que devo ter feito boas leituras porque uma vez, retornando das férias para o segundo semestre ele, após ler o que eu escrevera, colocou: - Edney, o que tu andas lendo?
Houve um período em que participei de uma série ( quatro ) de oficinas literárias, aqui em Porto Alegre. Após a oficina na PUC freqüentei outra, na UFRGS, com a Léa Masina. Essa mulher atribuiu-me uma qualificação que depois, em outras oportunidades tornei a ouvir, mas, sempre acompanhada de um mas.
Na verdade o termo utilizado foi apesar de, ou literalmente, apesar das.
Era o primeiro trabalho que ela nos retornava. Eu discorrera sobre a morte do “Simplório, um cara tão bom que Deus o requisitara.” – pra dar um jeito nas coisas, sabe-se que este mundinho anda precisando.
Me dá umas ânsias de contar essa história, ainda mais que eu a perdi, aliás, perdi todos os trabalhos dessa oficina, mas não importa. A Léa Masina deixou o meu trabalho por último e lascou:
- O Edney é um cara que pensa, apesar das aparências.
Alguns dirão que foi, no máximo, um meio elogio.
Na casa de cultura principiei uma oficina com o Charles Kiefer - podemos
acrescentá-lo aos contistas lidos anteriormente – mas não a conclui.
Em um trabalho literário fiz uma salada brasileira - missigenei caracteres textuais do Josué Guimarães com alguns contistas americanos – e o Charles não deglutiu muito bem. E olha que na teoria tratávamos de Paródia.
Desisti.
Vim a saber, mais tarde, que ele elogiou outros trabalhos que eu deixara.
Completando a quadrilogia conheci a residência do Lauri Maciel, ali, próximo à Bento Gonçalves – desta feita a avenida – na altura do Colégio Champanhat. Lá, não apenas o anfitrião, mas também meus colegas oficineiros eram garotos bem comportados.
Disseram que eu “dava os ares do Rubem Fonseca” – o Assis Brasil mencionara o João Antônio, que li somente após a comparação – pelos personagens marginais, pelas situações construídas. Imagine que a consumação do amor, ocorrida em um terreno baldio, por detrás de uma pedra, os deixou alvorotados; e pasmem: porque os personagens não se higienizaram após o ato.
Entre as leituras longas li O Nome da Rosa e, recentemente, O Código da Vinci. Outro dia um colega me ofereceu Fortaleza Digital e recusei. Basta um Dan Brown. Mas é preciso ler o que muitos lêem. O crivo do público ainda é um critério de seleção confiável. Assim li alguma coisa de Paulo Coelho e não o considerei nem tão ruim quanto a crítica da época o dizia, nem tão bom quanto o público, ainda hoje, o consome.
O que me trouxe até o IPA também foi uma leitura, porém não literária: um anúncio de jornal. Eram ofertados cursos noturnos de 3º grau, a preços acessíveis e com prova única de redação. A época pensei que poderia concluir um curso noturno exclusivamente no período da noite. Mas não posso.
Das leituras na faculdade duas me chamaram a atenção: Vemon e a Sabedoria Humana e o trecho O Almocreve, de Machado de Assis.
Na primeira, o personagem, soberbamente, se julga conhecedor dos perigos da convivência em sociedade, se isola e crê estar acima de suas agruras. Mas qual, uma a uma ele cai nas armadilhas da vida.
No segundo, o personagem nos traz o lado mesquinho da alma humana e o descaminho – redução na gratificação – narrativo em verdade nos traz o valor real da vida humana em tempos modernos, ou seja, muito pouco.
E o gibi do incrível Hulk?
Lembro perfeitamente o título da histórinha: “O Cruel Tirano”.
Agora diga cruel com a sílaba tônica no “u” e com o ‘e” fechado.
Daqui de onde escrevo antevejo seu sorriso pequeno, quase dissimulado, a fazer coro às gargalhadas e galhofas do passado.
Aperto as última teclas enquanto penso em leituras futuras, silenciosas, de preferência.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
"AMOR DE PERDIÇÃO", por César Carvalho Ambrosio
Amor de perdição é uma obra do ultra-romantismo português, esse movimento é a segunda fase do romantismo português. É muito semelhante ao “romantismo tradicional”, porém, é um pouco mais exagerado, com maiores conflitos e mais “catastrófico”. Esse livro é uma espécie de transição entre romantismo e realismo. Estamos no final do romantismo, na fase ultra-romântica e já temos indícios de realismo na obra.
A obra é basicamente ultra-romântica, devido ao amor levado ao extremo por Teresa e Simão e também por Mariana. Porém, em partes como a que fala de pessoas que bebem no convento, que riras fazem coisas que não dizem respeito à religião, sendo, muitas vezes, imorais...Fatos como esse denunciam a hipocrisia da sociedade da época – assim como fazia “Machado de Assis” - e isso é puro realismo. Apesar de Castelo Branco não ser um simpatizante do realismo (pois achava as obras desse movimento imorais e gostava de escrever livros que uma família pudesse ler junta, sem maiores problemas) escrevia em algumas horas de forma realista.
A primeira fase do movimento romântico é voltada, em muitas obras, ao nacionalismo, como em Iracema, sendo que o ultra-romântico busca mais trabalhar com os personagens em relação aos seus sentimentos, com os extremos que o amor pode alcançar, ou seja, até que ponto os sentimentos do homem podem guiar sua existência.
Na obra “Amor de Perdição” podemos fazer análise de alguns personagens e de algumas contextualizações:
Simão Botelho:
Simão é um personagem histórico - assim como Martin em Iracema, de José de Alencar – é baseado em um personagem real. O Simão real era um bagunceiro de Coimbra, que em 1807 foi degredado para Índia. O Simão de “Amor de Perdição” é um eterno apaixonado, um acadêmico alguém que não aceita as imposições do pai. Simão é um personagem típico do ultra-romantismo,
Aquela que leva o amor ao extremo, que encara a morte ou qualquer outra vicissitude por amor, é um herói romântico. Compara-se com Martin de Iracema, por ser um herói na obra, porém, seu amor é maior que o de Martin, pois Martin amava Iracema, mas, em alguns momentos, parecia não ter certeza do seu amor. Creio que ela não iria até a morte assim como Simão, que ao saber que Teresa morreu, adoeceu e morreu em poucos dias. Simão é defensor de idéias liberais, tem nobreza de caráter, é um burguês, é orgulhoso e vai ao extremo por um amor, mesmo quando este mostra-se impossível.
Teresa de Albuquerque:
Teresa de Albuquerque assemelha-se muito à Iracema de José de Alencar. A diferença é que o amor entre Teresa e Simão é mútuo. Ela também como uma personagem principal, assim como Simão é ultra-romântica. Vai ao extremo por amor, é capaz de chegar a te a morte, assim como Iracema que ama Martin incondicionalmente. Teresa, assim como Iracema, também briga com seu pai por amor, só que m Iracema a “briga” serve para concretizar o amor e em Amor de Perdição, não. Enclausurada num convento, ela sempre acredita que encontrará seu amor, Simão. Reflete muita fé e injustiças cometidas em nome da fé na época; só desacredita de seu amor no momento em que o próprio Simão lhe diz que somente após a morte poderão se encontrar. Desacredita que se encontrarão nessa vida, mas ainda crê que se encontrarão após a morte. Jamais desiste de seu amor, é uma eterna apaixonada. Na história ela é uma burguesa.
Mariana:
É a personagem mais sofredora do romance, Teresa e Simão ao menos um dia acreditam que irão se encontrar e ela apenas amam, mesmo sabendo que Simão ama outra mulher. Sofre muito por não ter o amor de Simão, é um símbolo de amor platônico, ama e nem ao menos se declara, e ate ajuda Simão na busca de sua amada, sendo que isso é algo que o faria feliz. É um símbolo de renúncia. É abnegada e fiel, é uma mulher mais velha - tem 24 anos - jamais diz uma palavra de ciúme, controla-se friamente. Tem um rosto bonito, lindos olhos azuis, um rosto belo e triste. É filha de um ferreiro, foi criada no campo, vem de uma classe social mais pobre. Sabe que não pode se aproximar de Simão, seja pela sua classe social mais baixa, ou por que Simão ama somente Teresa, mas prefere a morte a estar longe de Simão. forma o triangula amoroso (Simão,Teresa , Mariana) , assim como em Iracema (Martin, Iracema, Irapuã ou Martin, Iracema e a pretendente da Europa). É uma personagem romântica, por que é uma personagem com muitos conflitos não resolvidos e sofre muito também.
Domingos José Corrêa Botelho:
Homem muito autoritário, egoísta, flautista, pai de Simão e Manuel. Era corregedor em Viseu, sendo influente poderoso. Tinha uma frieza incalculável, quando, o seu filho iria ser condenado à forca, ele iria permitir, no permitiu por honra própria, porque sujaria o nome da família e porque um parente seu, que era bem mais velho, o exigiu. não demonstrou em momento algum ter sentimentos de um homem piedoso. Fazia questão que seu filho estivesse preso ou morto porque, então, não se casaria com Teresa, que era inimiga da família. Aparece na estória para ser parte do conflito também ( típico do romantismo), pois não quer ajudar seu filho, sua crueldade mexe com a emoção dos leitores.
D.Rita Botelho:
Esposa de Domingos Botelho era uma mulher submissa, sem voz ativa. mesmo ao ver que seu filho estava à beira da morte, não podia fazer nada se seu marido não decidisse; quando queria ajudar Simão, tinha que ser escondido. Era submissa, sendo um modelo das mulheres da época em relação à submissão.
João da Cruz:
João da Cruz, ferreiro , homem de baixa classe social , pai de Mariana , reflete o amigo fiel . É fiel até o fim por Simão. Ele tem grande importância, pois é o personagem que protege o herói, no início porta-se assim devido ao favor que o pai de Simão fez ao livrá-lo da forca, depois realmente torna-se amigo de Simão. Aproxima-se de Poti ,de Iracema , o amigo fiel de Martin , que também seria fiel a Martin até à morte se fosse preciso.
Baltazar Coutinho:
É um burguês guiado por interesses, é primo de Teresa, um rapaz sem moral e sem caráter. Pode-se dizer que quer casar com Teresa um pouco para manter seu orgulho mesmo, não a ama. pode recorrer a qualquer coisa para vencer Simão. Os dois “lutam” para vencer, porém, Simão tem sentimentos nobres e Baltazar não. Faz o papel de Irapuã de “Iracema”, só que tem motivos e caráter diferente. Irapuã luta por motivos nobres, para defender a sua tradição e por amor de Iracema, enquanto que Baltazar luta por motivos próprios e que são vis. Faz parte do triângulo amoroso da obra, e, por isso, faz parte do conflito da obra.
Tadeu Albuquerque:
É pai de Teresa, muito autoritário, quer a todo custo decidir a vida de Teresa, que decidir seu destino, porém moça não aceita sua ordem de casar-se com seu primo, o que revolta muito seu pai. Tem rivalidade com a família de Simão, esse é o grande motivo que faz o pai lutar para que não fiquem juntos. É um dos grandes impedidores do amor entre os dois, gerando grande conflito. É burguês e retrata o modelo de pai de família da época.
Manuel Botelho:
Manuel, é o jovem irmão de Simão. No início, critica o irmão pelo tipo de vida que ele levava, depois, envolve-se com uma mulher casada e vai morar com Simão em Coimbra, depois arrepende-se, porque é dependente de seus pais e pede ajuda aos mesmos para devolver a mulher casada com que havia fugido. Não se fala muito nele na obra, mas nota-se que é um “cabeça- fraca”, um tipo imaturo.
Ritinha:
Irmã de Simão, personagem secundária , também não tinha voz ativa, retrata um pouco também da mulher da época. Demonstra-se piedosa ao se importar com Simão quando sabe que ela esta na cadeia e por que quer ajudá-lo.
Prioresa e Padre Capelão:
São personagens hipócritas, falsos, imorais, beberrões, que escondem-se atrás da religião. Tem função também de retratar certos padres e freiras que se portavam assim em alguns conventos em que tudo ficava escondido (relacionam-se com uma visão realista).
Joaquina:
Aparece na estória para ajudar os amantes, é amiga de Mariana. É noviça, vive no convento, porém ainda não está “contaminada” pelas imoralidades de pessoas do convento tem bom caráter.
Mendiga:
Serve de “pombo-correio” dos amantes, tem um bom coração, pois os ajuda.
Castelo Branco, muitas vezes, baseava-se e personagens reais para que os leitores pudessem acreditar mais no que liam e para tornar mais fortes as emoções de quem lia suas obras. Esquematiza suas obras de forma que cada personagem que apareça na estória tenha uma função, aparecendo mais ou menos tempo na estória. Procura, em “Amor de Perdição”, levar os personagens ao extremo de seus sentimentos e, muitas vezes, o leitor também cria uma tensão ao ler o livro, pois a apelação ao sentimento dos personagens é muito forte e não se sabe ao certo o que vai acontecer no final. Isso é algo que ele faz com maestria. Seus personagens refletem o lado “romântico” porque não deixam-se guiar pela razão e, sim, por suas emoções. A emoção sempre se sobrepõe à razão e, com muito exagero, por ser ultra-romântico.
Em suma, “Camilo” é um autêntico ultra-romântico e, com certeza, ainda que o leitor não acredite no que lê, ele, em sua obra, consegue mexer com os sentimentos do leitor
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E ELETRÔNICAS:
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição, SÃO PAULO: Riddel, 2002.
NICOLA, José de. Introdução e comentários. In:BRANCO, Camilo Castelo. Amor de Perdição. SÃO PAULO: Scipione, 1994.
http://www.portrasdasletras.com.br/
"HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL", por Daiana Hahn Soltau
A obra Harry Potter conduz a discussões diversas, aborda o eterno confronto entre o bem e o mal, deixando evidente algumas mazelas da sociedade, como o preconceito, a divisão de classes através do dinheiro e do berço, a inveja, o egoísmo, a competitividade exacerbada, a busca pelo ideal – a necessidade de aprender, nem que seja à força, que a vida é feita de derrotas e vitórias e que isso é importante para a formação básica de um adulto. Conduz também, polêmica entre críticos literários sobre a obra, alguns aceitando a obra como um passo para a leitura dos adolescentes e outros afirmando que a obra é pobre e uma perda de tempo.
Segundo a escritora Stella Maris[2], a obra fez muito sucesso porque os fatores se somam: ser bem escrito e ter cativado a mídia ajuda. Ela acredita em algo mais: ‘‘O ser humano tem paixão pela possibilidade de mudar a realidade, não só pelo desejo próprio, mas de modo a interferir nos objetos’’. Além disso, acrescenta, Harry está em busca da própria personalidade. Sabe que é mágico, embora precise freqüentar a escola para aprimorar seus conhecimentos.
Carmen Lúcia Santos[3], também menciona uma conjunção de fatores: ‘‘A habilidade da autora em criar um universo mágico fascinante que toca em vários arquétipos humanos, um tipo de literatura que mescla uma linguagem fluente, um enredo envolvente e personagens que despertam a empatia do leitor e a simpatia da mídia pelo produto.
Sabemos que leitura é prazer e é um prazer que deve ser renovado a cada dia. Por isso não se deve falar em hábito de leitura, pois hábito implica repetição freqüente de um ato. E ninguém lê hoje porque leu ontem, assim como ninguém ama hoje porque amou ontem. O amor e a leitura têm em comum o prazer, requerem um exercício diário de conquista, de envolvimento, de diálogo com o outro, de sedução. E este princípio contraria a crença, partilhada por muitos de nós, de que existe um leitor formado. Contrapondo-se a essa crença, está à leitura como um processo de produção de sentidos que, envolve um tornar-se leitor e um tornar-se texto. Ou seja, diariamente o sujeito se constrói enquanto leitor.
Harold Bloom[4], renomado e influente crítico da literatura ocidental, não aceita a fórmula mágica de Rowling, declara não acreditar que as crianças que lêem Harry Potter irão ler coisas melhores em seguida, como Shakspeare ou Lewis Carroll. Bloom critica a linguagem, dizendo ser mal escrito.
Para Harold Bloom[5], Harry Potter “é um fenômeno de mercado. A maior parte dos livros para crianças à venda nas livrarias é idiota, não serve para nada, muito menos para suprir a necessidade de leitura de uma criança ou do leitor de qualquer faixa etária. Livros estão sendo confeccionados para vender e se tornar sucessos no cinema e na televisão [...]. Os tais livros infantis ajudam a destruir a cultura literária.” E ainda diz: “Odeio Harry Potter. É bruxaria barata reduzida a aventura. É prejudicial ao leitor.”
Em uma entrevista com a revista Veja[6], Harold Bloom chamou a linguagem do livro de ‘‘um horror’’: ‘‘Ninguém ‘caminha’ no livro. Os personagens ‘vão esticar as pernas’, o que é obviamente um clichê. E o livro inteiro é assim, escrito com frases desgastadas, de segunda mão. Escrevi resenha falando mal de Harry Potter. Foram enviadas mais de 400 cartas me xingando de todos os nomes. A defesa de livros ruins como esses, que vem de todos os lados — pais, crianças, mídia —, é muito inquietante e nem um pouco saudável’’.
Como pode Harold Bloom não admitir o quanto a obra Harry Potter é importante, pois para muitos leitores a obra foi o primeiro livro a ser lido e que a partir desta primeira leitura começaram a ler outras obras. Não concordo quando Harold Bloom afirma que o livro tem uma linguagem pobre ou uma escrita horrível, é apenas uma linguagem informal, pois é um livro para descontrair. E um livro de magias, que envolve um universo maravilhoso e fantástico, assim como outras obras clássicas que conhecemos, como: Odisséia, O Cavaleiro Inexistente, dentre outros. Poderíamos citar muitas outras obras clássicas, mas por que fazer uma crítica desconstrutiva em uma literatura contemporânea? Sabemos que é importante ler os clássicos e que nos acrescenta uma alta cultura, mas podemos, também, ler o que o mundo contemporâneo nos oferece.
Colasanti chega a valorizar alguns traços de Harry Potter, ainda que os relativize, na medida em que invoca o Julgamento “mais autorizado de Harold Bloom:
“Em artigo que escrevi para a revista colombiana Cinqüenta Cuentos Sincuenta dizia que Rowling é uma craque, que escreve bem, que o texto dela é leve, risonho e ágil. Não é o que pensa Harold Bloom a respeito de Harry Potter e a pedra filosofal [...]. Com muito menos autoridade do que Bloom, eu diria que as poucas descrições e muitos diálogos, a linguagem oral e o ritmo acelerado tornam os livros de Rowling palatáveis. Sem pausas, sem quedas na narrativa, vai emendando um fato no outro, levando o leitor a prosseguir na leitura. E termina como convém a livros de série, deixando a porta aberta para a próxima rodada (apud. Ceccantini, 2005).”
Como vamos oferecer uma obra como “Dom Casmurro”, de Machado de Assis ou “Senhora”, de José de Alencar para um leitor iniciante? Pois o leitor tem que começar com uma leitura fácil e prazerosa, que faça com que ele se identifique com a personagem. A leitura de “Memórias de minhas putas tristes”, de Gabriel Garcia Marques é uma leitura para descontrair, não é uma literatura clássica, mesmo se tratando de um grande escritor. Não é necessário que leiamos somente clássicos da literatura, independente da obra o importante é ler com prazer, e somente através da leitura é que aprenderemos a gostar e assim vamos fazendo uma seleção do que é melhor, começamos a ser mais críticos, mas para isso tudo tem um começo.
A escritora Ana Maria Machado assumiu publicamente sua opinião em relação à Harry Potter, e chegou a tratar do assunto num pequeno artigo, “Harry Potter – o truque mágico do fenômeno”. Nesse trabalho, a autora adota uma posição mais ponderada que as de Bloom e Cosalanti, embora não hesite em apontar na ficção de J.K. Rowling uma série de características que, de seu ponto de vista, revelam pouca originalidade literária. Machado chama nossa atenção para o fato de que a obra da escritora escocesa retoma elementos batidos na literatura infanto-juvenil, tais como o clichê do “órfão sofredor”, a ambientação das histórias em colégio interno, a utilização do “bruxo bom”, o recurso a uma dimensão paralela”, em que se verificam o uso de elementos mágicos e o final feliz. Mas o fato de apontar o que considera limitações na obra, desmistificando um pouco a aura que se criou a seu respeito, não impede que Machado reconheça também algumas de suas qualidades, procurando sobretudo, não menosprezar sua capacidade de arregimentar jovens leitores:
“[...] De duas coisas, porém, ninguém pode ter dúvidas. Antes de mais nada, qualquer livro bom que atraia a criançada para a leitura deve ser recebido de braços abertos. E é inegável que a série Harry Potter é bem construída, dosa bem [...] os clichês todos, têm ótimo ritmo e é muito gostosa de ler, mesmo sendo previsível aqui e ali. Ou seja, é divertimento de primeira qualidade. Tão bom (ou quase) quanto os livros de João Carlos Marinho [...] ou de Pedro Bandeira e Marcos Rey, outros excelentes autores nossos que vendem como pão quente. [...]. (apud. Ceccantini, 2005).”
Essa colocação de Ana Maria Machado é muito coerente, pois rejeita as opiniões de alguns críticos e focaliza que o mais importante é o envolvimento que o leitor tem com a obra, e por ela ter um ritmo acelerado vai levando o leitor a prosseguir na leitura. Embora o livro tenha uma capa atraente ele também é espesso, que acaba desafiando o leitor, que acaba sendo atraído pelo seu conteúdo, fazendo com que o leitor acabe querendo mais.
Haja vista que volta e meia há vozes a cantar aos quatro ventos que os jovens lêem pouco; que não se interessam mais pela literatura; que não enfrentam textos longos; que, se não fossem as leituras escolares obrigatórias, os romances juvenis e tantos outros talvez ficassem às moscas.
Isabelle Smadja é uma estudiosa francesa que defende a ficção de Rowling, dizendo ser minuciosa e consistente, abrangendo muitos aspectos, sobressaindo o idéia geral de que Harry Potter constitui um conto de fadas moderno, capaz de atualizar com competência sua função simbólica, já há muito tempo apontada por psicólogos (especialmente por Bruno Bettelheim) como das mais benéficas na formação das crianças, ao auxiliá-las a elaborar as suas mais diferentes emoções e a fortalecer sua identidade.
A pesquisadora francesa identifica em Harry Potter a sistemática valorização da razão, do saber e do conhecimento da força da contradição, valorizando na obra a contínua discussão de valores do bem e mal. Atravessam o significativo teor de crítica social e a presença da desobediência, num relativismo de valores que põe em xeque a tradição e busca considerar cada situação em seu contexto.
Além da perspectiva humanista, Smadja elogia em Harry Potter a eficiente fusão entre o real e o maravilhoso, emprestada à melhor tradição da literatura, infanto-juvenil ou não, enfatizando que estão incorporadas às narrativas do pequeno bruxo diversas vertentes, sendo citados e fundidos os mais fantásticos seres. É o caso das mitologias greco-latina, celta, escandinava, dos contos de fadas ou da literatura inglesa dos séculos XIX e XX, entre outros.
No Brasil, foi Walnice Nogueira Galvão uma das primeiras vozes de peso que vieram a público comentar Harry Potter de uma perspectiva francamente positiva. Em artigo publicado no suplemento “Mais!” da Folha de São Paulo, em 2000, a pesquisadora faz um entusiasmado elogio à série. A linha de argumentação de Galvão vai ao encontro da de Smadja no que diz respeito ao rico diálogo estabelecido pela obra com outras tradições literárias, em particular a do conto de fadas:
“[...] Uma das razões desse acerto pode ser buscada nas mitologias européias, mais nórdicas ou não latinas, criação dos povos bárbaros e território de fadas. [...] A revalorização tanto do medieval quanto do populário efetuada mais tarde pelo romantismo procederia à redescoberta dos contos de fadas, obras-primas de que um mundo deslumbrado tomaria conhecimento graças à coleta e adaptação devida aos irmãos Grimms, na Alemanha, e Perrault, na França.” (apud. Ceccantini, 2005)
Acharmos que a obra Harry Potter é “bruxaria barata” é um pouco incoerente, pois muitas obras mitológicas citadas, contém bruxarias, métodos de magias e todo um envolvimento fantástico que fascina o leitor. Temos outro bom exemplo de uma que é “Tristão e Isolda”, cujo autor não é identificado na obra, mas é um excelente romance da época medieval, que envolve e seduz o leitor, fazendo com que o leitor acabe se identificando com as personagens, também, é um livro bastante espesso que assusta e desafia, mas acaba envolvendo através do enredo, claro que, o assunto é para adultos, mas mesmo assim, não é considerado “pobre”, por ter dragões, poções mágicas que faz o moçinho se apaixonar pela princesa, uma paixão através do feitiço.
Tristão e Isolda é uma excelente literatura, que muitos professores de literatura ocidental trabalham com esta obra em suas aulas, fazendo uma análise daquela época. Não podemos ter a certeza de que Harry Potter será uma obra trabalhada daqui um século ou dois, mas ninguém nos garante que não, talvez as pessoas dêem mais significado à obra e percebam sua qualidade daqui algum tempo, assim como aconteceu com Monteiro Lobato e suas obras, mas que fique bastante claro que, não estamos fazendo comparações das obras de Monteiro Lobato com as obras de J. K. Rowling, pois sabebos que há bastante diferença, principalmente na construção da linguagem e da ideologia, falamos apenas em reconhecimento de uma grande obra escrita para crianças, que acabou envolvendo até mesmo os adultos.
Podemos dizer que o assunto está de acordo com o leitor, pois tanto o leitor infanto-juvenil, quanto o leitor adulto se envolvem na história, claro que o livro foi escrito para leitores de faixa etária entre nove a doze anos, mas até os mais velhos caíram no encanto da obra, mesmo para aqueles que, nunca havia lido livro algum, se interessaram pela história, que traz uma permanente construção e reconstrução de identidade. Não podemos deixar de perceber que os leitores acabam se identificando com as personagens e, também, embarcando em uma viagem quando lêem esta obra, ocupando boa parte do seu imaginário, pois a mesma mostra um mundo diferente. Na história está muito presente a preocupação em relacionar ação, aventura, inteligência, a importância do estudo, da amizade, o humor, o medo, a coragem e a esperança, pois tudo isso vivemos no nosso cotidiano, na vida real, e isso faz com que o leitor reflita sobre alguns valores.
O livro não está adequado no volume de leitura para as crianças, e isso assusta, ainda mais não tendo ilustrações, mas mesmo assim o leitor acaba dando conta de ler este livro, pois a linguagem é coloquial, facilitando e fazendo com que o leitor vá até o final da obra, principalmente se for leitor de primeira viagem, e ainda, acaba incentivando para que prossiga com outras leituras. Claro que, não podemos deixar de perceber que há uma diferença de qualidade na construção da linguagem, mas ainda assim, é uma obra excelente para iniciantes, que, nada impede que o leitor prossiga suas leituras com obras clássicas e com uma linguagem de qualidade.
A autora Vera Teixeira Aguiar[7] nos apresenta em seu artigo que, ao entrarem em contato com a obra, as crianças leitoras são conduzidas, pelas pistas do narrador, a um universo mágico novo, mas nem tanto, porque moldado à luz dos contos de fadas tradicionais e, por isso mesmo, seguro e acolhedor. Por outro lado, as indicações de leitura sugerem desafios, não-ditos, mistérios. Da combinação de conhecido e desconhecido surge o encantamento do texto e, por essas vias, as crianças desenvolvem uma atitude leitora como não víamos desde os tempos de Monteiro Lobato.
Ainda a autora nos diz que o produto massivo é aquele que vem preencher as necessidades da demanda, não provocando alterações de comportamento, senão aquelas voltadas para determinado consumo induzido pelo objeto em foco. Em oposição à arte e à literatura em especial, já que discutimos o universo dos livros, as obras triviais satisfazem as exigências de mercado e não abrem perspectivas inovadoras, críticas e críticas, regendo-se pela repetição de fórmulas consagradas. A introdução do inusitado, em termos formais, conceituais e valorativos, desestabiliza o ato de ler, propondo novos pactos ficcionais, novos diálogos. Exige, portanto, um esforço do leitor, que deve providenciar atitudes não repetitivas. Precisamos, então, abandonar hábitos e gostos corriqueiros para sermos receptivos a comportamentos alternativos e experiências desafiadoras. Por esses caminhos, saímos da literatura mais ricos do que éramos quando entramos.
Ler é, também, manter uma atitude de concentração solitária, é afastar-se do grupo e criar um mundo à parte, organizado a partir das imagens que as palavras sugerem. Ao fazer tal exercício, o leitor volta-se para si mesmo, constrói, em primeiro lugar, seu interior. O que ele descobre no texto é antes de tudo, sua capacidade de descobrir sentidos.
Os adultos e as crianças que falam de suas experiências com Harry Potter são unânimes em apontar a fantasia como o aspecto que mais lhes chama a atenção. Os primeiros tentam explicar racionalmente seu entusiasmo, referindo-se á construção perfeita das personagens, ao encadeamento narrativo, à riqueza dos subterfúgios mágicos, à validade de embarcarmos na fantasia em face das agruras da vida. A última justificativa conduz à idéia de fuga da realidade, de procura de uma alternativa fantasiosa para os afazeres prosaicos. No entanto, esses adultos passam a viver uma história em moto-contínuo e aprendem outros modos de agir e de solucionar problemas, isto é, as aventuras de Harry Potter apontam para outras instâncias possíveis da existência.
Para as crianças, a fantasia é concebida de modo mais global, como detonadora de um universo possível, onde tudo pode acontecer, por isso a grande procura pelos livros. Também salientam Harry Potter como causa de sua simpatia pelas histórias, sobretudo pelas características da personagem, que é um bruxo. Fazer bruxarias, para elas, significa exercer o poder do bem e do mal, ocupar um espaço de relevo no mundo a serem respeitadas.
A construção do herói, para o qual a simpatia dos leitores recai, denota, já nas páginas iniciais do primeiro livro, suas condições extraordinárias. Ele possui, nas origens, uma herança de magia, uma vez que os genitores eram bruxos, a qual se soma à força da resistência, pois é ele o único que se salva e está destinado a vencer o vilão. Nesse sentido, passado e futuro garantem-lhe a vitória, e aí reside a heroicidade da personagem. Embora sofra vários revezes e seja constantemente perseguido, tem sempre a promessa de um final feliz e compensador dos sofrimentos vividos. Para os leitores que o acompanham, está dada a certeza do desfecho com sucesso, mas nem por isso eles vão deixar a leitura de lado. O que lhes importa é o processo da aventura, os modos como o menino vai dar cabo dos inimigos.
Os livros transmitem a idéia de que, malgrado nossas dificuldades, sempre podemos vencer os obstáculos porque possuímos qualidades inatas, potencialidades a serem desenvolvidas e talentos a serem revelados. Nesse sentido, a coleção funciona com um conto de fadas moderno, para o qual os problemas existem, mas seguramente podem ser resolvidos. A mensagem otimista de mundo que transmite atinge crianças e adultos, sobretudo porque a injustiça, a violência, a guerra, a disputa e o ódio não são banalizados, como no dia-a-dia contemporâneo. Ao contrário, todos os males são importantes e devem ser enfrentados e resolvidos.
Sendo assim, fica claro o quanto é importante e divertido para os leitores, principalmente, os infantis e iniciantes a obra Harry Potter, claro que o marketing está por trás de tudo, mas também temos que admitir que se não fosse o marketing, muitas outras obras não teriam sido apresentadas para o público, pois hoje vivemos em um círculo “marketiano”. Não podemos deixar de analisar o quanto é importante para as crianças o herói da história, pois os ensina “valores” a serem seguidos, a distinção entre e o bem e o mal, o certo e o errado. E esses princípios estão sempre dentro de nós, só que, muitas vezes escondidos e através da leitura eles desabrocham e redescobrimos os nossos valores.
[1] ROWLING. Joanne K. Harry Potter e a pedra filosofal. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
[2] http://www.camara.gov.br/internet/tvcamara em: 20/09/2007.
[3] http://www.devir.com.br/harrypotter/livros em: 20/09/2007.
[4] http://www2.correioweb.com.br em: 06/11/2007.
[5] CECCANTINI, João Luís. “Leitores de Harry Potter: o negócio à negociação da leitura”. In. JACOBY, Sissa; RETTENMAIER, Miguel (Org.). Além da Plataforma nove e meia. Passo Fundo: UPF, 2005.
[6] http://br.geocities.com/entrevistahb em: 21/10/2007.
[7] AGUIAR, Vera Teixeira. “O bruxo e os leitores. ”. In. JACOBY, Sissa; RETTENMAIER, Miguel (Org.). Além da Plataforma nove e meia. Passo Fundo: UPF, 2005.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Análise do conto "O soldadinho de chumbo"
LEANDRO RODRIGUES VIEIRA
NATÁLIA ALBERICI ARRAIS
PAULO RICARDO CHRISTOFOLI
Mesmo que implicitamente, a criança ao entrar em contato com esses textos vai absorvendo valores essências para sua formação e encaixando peças, como eu um quebra-cabeça, determinantes para seu futuro caráter e enfrentamento diante as adversidades que a vida lhe apresenta.
Bruno Bettelheim, em seu livro “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, diz:
Esta é exatamente a mensagem que os contos de fada transmitem à criança de forma múltipla: que uma luta contra dificuldades graves na vida é inevitável, é parte intrínseca da existência humana – mas que se a pessoa não se intimida mas se defronta de modo firma com as opressões inesperadas e muitas vezes injustas, ela dominará todos os obstáculos e, ao fim, emergirá vitoriosa (BETTELHEIM, 2002, p.6).
No decorrer deste trabalho, tentaremos dar uma idéia, mesmo que superficial, da importância do conto de Hans Christian Andersen na formação do leitor infantil, analisando sua simbologia e significados, demonstrando que os valores constantes na obra ultrapassam o tempo, o espaço, vindo ao encontro com conflitos tão presentes no mundo contemporâneo.
BIOGRAFIA DE HANS CHRISTIAN ANDERSEN
Hans Christian Andersen nasceu no dia 2 de abril de 1805, em Copenhagen, vindo a falecer em 4 de agosto de 1875.
Filho de lavadeira e sapateiro, aprendeu a ler desde muito cedo e adorava ouvir as histórias contadas por seu pai. Nasceu numa época em que a Dinamarca estava se voltando aos valores nacionalistas e descobrindo seus valores ancestrais. De certa forma graças à sua infância pobre, Andersen teve a chance de conhecer os contrastes de sua sociedade, o que influenciou bastante as histórias infantis e adultas que viria a escrever quando mais velho. É considerado o pai da literatura infantil e juvenil universal.
Em 1816, seu pai morreu e ele, com apenas onze anos, precisou abandonar a escola, mas já nessa época demonstrava aptidão para o teatro e a literatura. Criou uma espécie de teatro de brinquedos e apresentava peças clássicas.
Aos catorze anos, saiu de casa e foi para Copenhagen, onde conheceu o diretor do Teatro Real, Jonas Collin. Anderson trabalhou no teatro como ator e bailarino, além de escrever algumas peças. Em 1828, entrou na Universidade de Copenhagen publicando diversos livros, mas só alcançou o reconhecimento internacional em 1835, quando lançou o romance O Improvisador.
Contudo, apesar de ter escrito diversos romances adultos, livros de poesia e relatos de viagens, foram os contos de fada que o tornaram famoso. Especialmente pelo fato de que, até então, eram muito raros livros voltados especificamente para crianças.
Ele foi, segundo estudiosos, a primeira voz autenticamente romântica a contar histórias para as crianças e buscava sempre passar padrões de comportamento que deveriam ser adotados pela nova sociedade que se organizava, inclusive apontando os confrontos entre poderosos e desprotegidos, fortes e fracos, exploradores e explorados. Ele também pretendia demonstrar a idéia de que todos os homens deveriam ter direitos iguais.
Entre 1835 e 1842, Andersen lançou seis volumes de Contos, livros com histórias infantis traduzidos para diversos idiomas. Ele continuou escrevendo seus contos infantis até 1872, chegando à marca de 156 histórias. No começo, escrevia contos baseados na tradição popular, especialmente no que ele ouvia durante a infância, mas depois desenvolveu histórias no mundo das fadas ou que traziam elementos da natureza.
Alguns contos importantes do autor:
A Nova Roupa do Rei – 1829
O Isqueiro Mágico – 1835
A Pequena Sereia – 1836
O Soldadinho de Chumbo – 1838
O Patinho Feio – 1843
A Pequena Vendedora de Fósforos – 1846
ESTRUTURA BÁSICA DO CONTO
O cenário inicial do conto nos remete para uma situação de dificuldade e restrição do herói pelo fato de ter apenas uma perna. Porém existe o sentimento de superação dessa diferença descrita no texto na passagem: “Mas ele ficava tão bem de pé, numa perna só, como os outros nas duas” (ANDERSEN, P.152).
Os conflitos estão presentes durante basicamente todo o conto. As diferenças sociais, situação essa impregnada na Dinamarca do século XIX, em que as constantes guerras enfraqueciam as finanças e aumentavam os contrastes entre a plebe e a nobreza, também estão presentes, situação essa evidenciada no trecho:
“ Esta seria uma mulher ideal para mim. Mas é muito aristocrática, mora num palácio, e eu tenho apenas uma caixa de papelão, onde somos vinte e cinco” (ANDERSEN, P.153).
O elemento do sobrenatural é carregado pela presença do Duende e como se fosse a voz dessa sociedade de classes diz para o Soldadinho que a bailarina está acima dele. “Soldado de Chumbo! – disse o duende. – Tira os olhos de lá!” (ANDERSEN, P.154).
Ocorre uma ruptura quando o herói sai da proteção e mergulha no completo desconhecido. Nesse momento as aventuras vividas pelo Soldadinho fazem aflorar seu sentimento de amor e perseverança diante as diversas dificuldades enfrentadas no transcorrer do conto.
O confronto e a superação desses obstáculos e perigos, busca soluções no plano da fantasia com a introdução de elementos imaginários.
O enredo segue linear e o processo de solução dá-se pela passagem que leva o soldadinho a ser encontrado dentro do peixe e, por uma dessas reviravoltas do destino, o soldadinho vê-se novamente diante da bailarina.
O desfecho remete-nos a um final apoteótico na qual o soldadinho e a bailarina se fundem em um só coração dando assim a sensação da transformação em algo novo.
SIMBOLOGIA DO CHUMBO
Símbolo do peso da individualidade incorruptível. Para a transmutação do chumbo em ouro, os alquimistas buscavam simbolicamente desprender-se das limitações individuais, para atingir os valores coletivos e universais.
O chumbo simbolizaria a matéria, enquanto está impregnada de força espiritual e a possibilidade das transmutações das propriedades de um corpo nas de um outro, assim como das propriedades gerais da matéria em qualidade do espírito. O chumbo simboliza a base mais modesta de onde pode partir uma evolução ascendente.
Essas características citadas acima estão muito presentes no conto O Soldadinho de Chumbo, principalmente em seu final quando há uma transformação do Soldadinho e da bailarina em um coração.
ANÁLISE DO CONTO
O conto O Soldadinho de Chumbo foi o primeiro escrito totalmente por Andersen. O conto trata de um grande amor entre o Soldadinho de Chumbo e a Bailarina e durante sua narrativa aponta situações precárias da vida.
O conto não traz a tona apenas o sentimento de amor, pois trata de ética, diferenças culturais, identidade e aceitação das diferenças.
No conto, Andersen utiliza-se da animação de objetos, como os brinquedos, para representar a impotência das crianças, incompreendidas e cheios de desejos que ninguém escuta.
Andersen tinha uma visão do amor platônica e muitas vezes mortal, levando-nos a pensar que ele encontrou beleza nas palavras, mas nem por isso teve recompensas no campo do amor.
Na passagem do conto em que o soldadinho é engolido por um peixe e depois retirado da sua barriga, podemos fazer uma analogia com a gestação, um renascer para uma nova oportunidade uma vez que por obra do destino foi parar exatamente no mesmo lugar de onde havia saído.
A morte do soldadinho e da bailarina não deve ser encarada como uma tragédia, mas sim como uma transformação, pois é nesse momento do conto, e somente nesse momento, que os dois conseguem ficar unidos. Da união dos dois surge um coração significando o amor pela eternidade. Essa transformação que ocorre pode estar relacionada também com a simbologia do chumbo na qual esse elemento é considerado a base mais modesta de onde pode partir uma evolução ascendente.
Abaixo uma análise, publicada na Zero Hora em 02.04.2005 de Diana e Mário Corso em “A infância invade o conto de fadas”.
Por isso, não surpreende que o Soldadinho de Chumbo seja uma história de amor infeliz. Trata-se de soldadinho diferente, pois lhe falta uma perna. Em função disso, apaixona-se por uma bailarina de papel, cuja perna erguida faz parecer que ela também tem apenas uma.Fascinado pela amada, coloca-se num lugar desde onde possa contempla-la e deixa de ser guardado com seus irmãos. Em função disso, o soldadinho sofre inúmeros revezes, cai da janela, é colocado a navegar pelos esgotos num barquinho de papel e termina na barriga de um peixe que, para seu grande espanto, é comprado pela cozinheira da casa onde morava. Mas nem essa virada da sorte propicia o amor impossível dos dois: somente na morte, queimando juntos, derrubados na lareira eles finalmente se fundirão.
Como o soldadinho e a bailarina, as crianças estão à mercê de serem levadas para onde forças superiores quiserem. Devemos lembrar que é bem recente a idéia de consultar uma criança a respeito de se ela quer ou não ir a determinado lugar ou se está sentindo-se bem onde está. Nos tempos da infância de Andersen, crianças morariam como, quando e com quem fosse disposto que deveria ser, e pouco importava o que achassem disso. Além disso, seus sentimentos não passavam de secretas fantasias e ilusões, que o mundo ignorava solenemente(CORSO, 2005).
CONCLUSÃO
Após proceder a leitura e análise do conto O Soldadinho de Chumbo, podemos entender um pouco sobre a importância desse tipo de texto na formação da criança.
Mais que apenas uma história, esse conto nos faz refletir sobre temas atuais como integração, amor, persistência, coragem e finalmente capacidade de enfrentar as adversidades que nos são impostas no dia-a-dia.
Esse conto foi escrito por Andersen em 1838, mas o seu conteúdo universal se atualiza pelos anos.
Como Bruno Bettelheim escreve em sua obra A Psicanálise dos Contos de Fada:
Aí temos uma das múltiplas verdades reveladas pelos contos de fadas, que podem orientar nossas vidas: uma verdade tão válida hoje em dia como nos tempos do “era uma vez” (BETTELHEIM, 2002, p. 324).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDERSEM, Hans Christian. O Soldadinho de Chumbo.
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. 16ª ed. [S.I.]: Paz e Terra, 2002.
CORSO, Diana; CORSO, Mário. A infância invade o conto de fadas. Zero Hora. Porto Alegre, 2 abr. 2005.
WIKIPÉDIA. Andersen: vida, história e literatura. Disponível em:
sábado, 15 de setembro de 2007
A Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo-RS abordou o tema “A leitura da arte e a arte da leitura”.
Participei, na última semana do mês de agosto, da Jornada Literária de Passo Fundo-RS. E, para minha agradável surpresa, pude constatar um verdadeiro engajamento da comunidade acadêmica da Universidade de Passo Fundo UPF, personificado na Prof. Dra. Tânia Rössing, a favor da literatura brasileira.
Foram cinco dias de exposições de arte, encontros com escritores, espetáculos teatrais, palestras com escritores de vários países, autógrafos e muitos livros. Tudo isso em uma atmosfera mágica, primeiramente, porque o cenário desse evento é constituído de um circo, denominado Circo da Cultura, e é nele que acontecem a maioria das palestras, representa a sede de toda aquela estrutura fantástica. E segundo, pelo envolvimento de todos os participantes: professores, estudantes, jornalistas, leitores, intelectuais e amantes da literatura de diversas partes do mundo.
Paralelamente, ocorreram cursos, encontros de escritores com as crianças, entre as várias atividades que constituem a Jornadinha Literária. A Jornadinha constitui o espaço destinado ao encontro das crianças com o mundo da literatura. São armados vários circos, só que menores do que aquele que acolhe os adultos, e neles são abrigadas as crianças provenientes das escolas da região. Segundo informações contidas no site do evento, estima-se que participaram mais de 14 mil crianças.
Sob a coordenação do escritor Inácio de Loyola Brandão, do romancista e dramaturgo Alcione Araújo e do escritor, crítico e ensaísta Júlio Diniz, passaram pelo palco do Circo da Cultura, entre outros, Regina Zilberman, Mia Couto, Milton Hatoum, Miroslaw Bujko (Polônia),Ziraldo, Marina Colassanti,Elisa Lucinda e Lya Luft.
No encontro estadual de escritores, refletindo a “ Criação literária gaúcha” estiveram: Caio Ritter, Marcelo Carneiro da Cunha, Paula Mastroberti, Paulo Betancur,Alfredo Aquino, Cláudia Tajes, Juremir Machado da Silva,Paulo Ribeiro, Sérgio Capparelli, Daniel Galera, Fabrício Carpinejar, Letícia Wierzchowski,Moacyr Scliar,Charles Kiefer, Aldyr Schlee, José Clemente Pozenato, Kledir Ramil e Monique Revillion.
É, realmente, impossível não sair de lá, no mínimo, um pouco mais otimista com a situação da educação no Brasil. É a manifestação do trabalho de várias pessoas que ainda acreditam em um mundo melhor, que, por meio da literatura, promovem a arte, a arte de ler, de escrever, de inventar e de acreditar em mundo ficcional, que utiliza a realidade como desculpa para se fazer existir, e existindo põe em dúvida o que chamamos de realidade.
Nilson Régis, aluno do Curso de Letras/Português do Centro Universitário Metodista do Sul.
