segunda-feira, 2 de março de 2009

As adaptações em “Ímpar”

Fernanda Silva da Roza

A relação entre o escritor de literatura infantil e o seu respectivo leitor, segundo Regina Zilberman (2003), é assimétrica, pois suas experiências e interesses, assim como suas capacidades cognitivas, são imensamente diferentes. Para que essas diferenças não sejam visíveis na obra, o autor deve adaptá-las, procurando que elas tornem-se o mais semelhante possível do universo infanto-juvenil. A partir desse princípio, analisaremos o livro “Ímpar”, de Marcelo Carneiro da Cunha, interpretando e apontando se os níveis de adaptação estão de acordo com as possíveis expectativas do leitor.
Ao lermos “Ímpar”, acompanhamos a trajetória de um menino que, ao sofrer um acidente de carro, perde o braço. Após o episódio, por decisão de seus pais, muda-se para outra cidade, em que, ao buscar tratamento em uma clínica de reabilitação, faz novos amigos “ímpares”, deficientes como ele, que o ajudam a buscar sua nova identidade e, principalmente, a aceitar sua nova condição.
Em um primeiro momento, podemos pensar que o assunto de “Ímpar” trai o leitor, pois trata de diferenças, o que nos lembra preconceito. Parece, nesse caso, que a leitura traz um ensinamento. Porém, se avaliarmos por outro ângulo, poderemos ver que o assunto é bem evidente para o leitor, logo, nos primeiros capítulos, o que o isenta de qualquer surpresa posterior por se tratar de uma história de deficientes físicos.
Acreditamos que o livro compreenda uma gama de leitores de idades entre dez e treze anos, esses jovens têm condições de formar opinião sobre diversos assuntos, inclusive sobre esse. O fato de a história ser de um menino que não tem um braço, não quer dizer que ela diga respeito somente a deficientes. Enquanto lemos o livro, somos envolvidos, principalmente, porque entramos no universo de um menino no início da adolescência, que tem as mesmas angústias e o mesmo comportamento de um menino comum, e isso se sobrepõe à sua deficiência.
O autor peca ao mostrar a união de um grupo de portadores de deficiências diferentes. Para Silveira (2003), isso é inverossímil, pois, de acordo com o ponto de vista da comunidade surda, o mais plausível seria que meninos e meninas surdas se unissem por terem interesses semelhantes, como a Língua de Sinais, que não tem ligação com outras deficiências.
Em relação ao comportamento de Zóli e de Bibiana, Cunha demonstrou ter acertado a medida. Zóli enfrenta os dilemas relativos à adolescência de um menino comum, entretanto, as suas falas, compostas por detalhes minuciosos, não escondem a sua condição e atribuem mais realismo ao personagem, como nesta passagem: “Eu fui pro vestiário, coloquei a meia e o tênis, não posso usar tênis de amarrar – sorte que agora tem esses com velcro -, [...]” (CUNHA, 2002, p. 101).
Bibiana é carismática e expansiva; admirada por todos, é uma espécie de líder da turma de “ímpares”. Ela é, também, responsável pela inserção de Zóli na turma, já que é ela quem faz todo o intermédio entre eles, favorecendo a aproximação. Bibiana é aceita e reconhecida pelo grupo ao qual pertence, e por ter nascido com a deficiência, ela já finalizou todo processo de reconhecimento pessoal pelo qual Zóli ainda deverá passar. Por isso, ela é um personagem encarregado de “guiar” Zóli, mostrando para ele que, apesar de sua deficiência, pode ter uma vida normal.
É na construção dos pais que a história se torna mais verossímil. Ao contar sua história, Zóli vai dando pistas de que seus pais estão com problemas e agindo de forma diferente depois do acidente. Principalmente, a mãe, que ele relata como se estivesse se sentindo culpada:

Os meus pais mudaram um monte. A minha mãe não teve culpa nenhuma do acidente, o outro cara tinha bebido, o idiota. [...] Eu tinha escutado eles dois brigando na noite passada, não sei o que era, mas eles nunca faziam isso antes. Era sempre amorzinho pra cá, benzinho pra lá, beijinho pra cá, eu até me sentia envergonhado, [...] (CUNHA, 2002, p. 27).

De acordo com Gomes (2006), as famílias passam por um “processo de luto” ao receberem um filho deficiente. De maneira mais simples, podemos dizer que é como perder um filho perfeito e ganhar um deficiente, e, assim, ser necessário aceitar e adaptar-se a essa nova realidade. Em “Ímpar”, podemos observar o comportamento dos pais e verificar a semelhança com os estágios relacionados a esse processo.
As etapas do luto são quatro: choque, negação, sofrimento e recuperação. Não chegamos a acompanhar a fase do choque, pois a história mais detalhada inicia no momento em que Zóli e sua família mudam-se para outra cidade. Já a etapa da negação, em que a pessoa se pergunta “Por que isso aconteceu e não pude evitar?” e a fase do sofrimento e desorganização, em que a pessoa se sente culpada e que se afasta da sua rotina, são bem presentes no livro.
Eles abandonam a outra cidade, como quem foge da realidade. Após isso, além de largar os estudos e ter problemas, que não tinha antes, com o marido, a mãe de Zóli trata o filho com desvelo excessivo, demonstrando que se sente culpada e tem medo do seu julgamento. O menino percebe e comenta isso em uma passagem do texto: “Depois do acidente ela ficou assim. Antes ela nunca parava de me perguntar alguma coisa que ela achava que eu tinha para dizer, nunca.” (CUNHA, 2002, p. 19).
O comportamento dos pais de Tula também se enquadra nas “fases de luto”. O pai deixou a família e a mãe tentou fugir da situação, deixando de dar a atenção necessária à filha. Em contrapartida, a mãe de Bibiana, assim como a filha, demonstra-se bem segura, provavelmente, porque lida com o problema há bastante tempo, então, já se recuperou do trauma e passou pelo processo de maturação necessário para lidar com a situação da maneira que os outros pais não estão preparados ainda.
Os pais de Zóli chegam à fase de recuperação e aceitação quando procuram o filho a fim de ajudá-lo em sua luta para fazer parte da equipe de tênis. Depois que o garoto obtém sucesso com o tênis, a história começa a entrar em harmonia e a família começa a se estabilizar novamente. Enfim, mãe e filho, mais confiantes e seguros, conversam, firmando a recuperação deles.
Voltando à questão da adaptação, Regina Zilberman (2003), embasando-se nos ângulos de adaptação de Göte Klinberg, afirma que, em nível de assunto, esta deve ser feita com a intenção de adequar a obra ao conhecimento de mundo do leitor, e, por conseguinte, os assuntos pelos quais o recebedor não compreende devem ser banidos. Todavia, em alguns casos, é necessário que sejam acrescentados alguns conteúdos desconhecidos, diversificados, com o intuito de promover uma melhoria no comportamento social e intelectual do leitor.
Dessa forma, após interpretarmos alguns pontos de “Ímpar”, podemos concluir que seu assunto é adequado ao público ao qual se propõe a atingir, visto que se trata de uma narrativa sobre deficientes físicos e o recebedor tem conhecimento, mesmo que superficial, sobre o assunto e capacidade para refletir sobre ele.
Sempre que tratarmos de temas polêmicos, que geram preconceito, nos questionaremos sobre a existência, ou não, de “ensinamentos” que poderão ser introjetados no leitor. É difícil tratar de deficiência sem passar alguma lição de moral, mesmo que esta esteja nas entrelinhas. No caso de “Ímpar”, concluímos que algo, com certeza, fica, mas sem ultrapassar as barreiras da fruição. Indubitavelmente, a timidez e os conflitos de Zóli, somados à descontração e alegria de Bibiana chamam mais a atenção do leitor do que o problema que eles têm. Dado que o assunto não é abordado, frequentemente, pelos livros, podemos acreditar que o conteúdo acrescentará ao intelecto do leitor como informação adicional, mas sem condicioná-lo a ler o que não procura.
Em “Ímpar” há uma boa adaptação em nível de forma. A narrativa acontece linearmente, o que facilita a leitura. No início, ficamos um pouco confusos com os tempos verbais usados e com a organização de algumas passagens do texto. Logo depois de lermos algumas páginas, verificamos que isso não passa de uma caracterização do personagem.
Zilberman (2003) diz que o leitor tem que se identificar com os personagens. Como tratamos anteriormente, a história é bem verdadeira ao olhar do jovem comum, normal. O interessante é que à perspectiva do portador de deficiência, os personagens também atendem a essa exigência. Zóli apresenta questões bem pertinentes ao universo dos deficientes. Como neste trecho, em que demonstra se incomodar com as pessoas que ficam questionando-o sobre a origem da sua deficiência: “Um cara até veio me dar oi, perguntar de onde eu tinha vindo, mas eu não dei muita conversa. Logo eles começam a perguntar o que aconteceu comigo, como foi, se doeu, essa coisa toda e eu odeio isso, [...]” (CUNHA, 2002, p. 21).
Porém, há outras não tão pertinentes, como no último capítulo em que Zóli resolve colocar um braço, e conta com muita empolgação como é a ponta de gancho. Na fase inicial da adolescência, os jovens são muito inseguros e têm vergonha de tudo. Se considerarmos isso, veremos que seria quase impossível convencer um menino a usar um braço com um gancho no lugar da mão e, muito menos, fazê-lo achar que isso é muito legal.
Entrando na questão do estilo, observamos que à voz do narrador está um menino de prováveis doze anos, o que explica a repetição e a informalidade das palavras. Isso nos autoriza dizer que a linguagem está de acordo com o leitor do livro, que não terá dificuldade em compreender o texto. O ponto fraco dessa linguagem é a falta de palavras diferentes que enriqueceriam o vocabulário de quem o lê.
Sobre o aspecto físico do livro, a primeira impressão que temos é sempre através da capa. No entanto, o leitor mais distraído, que não se apega aos pequenos detalhes, não perceberá, em um primeiro instante, que o menino pega o gibi apenas com uma das mãos, e que o Super-Homem estampado na capa do gibi tem apenas uma perna. Não podemos deixar de esclarecer que essa ilustração pode ser proposital, pois ao olhar da criança, que é mais minucioso aos detalhes, é provável que nada disso passe despercebido.
Contendo pouco mais de cem páginas, capítulos curtos e texto interrompido por pequenas imagens e páginas em branco, pode ser lido com facilidade por pré-adolescentes. As figuras que ilustram o interior do livro são poucas e se repetem a cada início de capítulo, dessa forma, se revelam de forma positiva, pois não causam interferências na interpretação do leitor.
Após fazermos uma análise sobre os aspectos que podem ser trabalhados no livro infanto-juvenil, com o intuito de aproximá-lo às características e perspectivas do leitor, devemos refletir sobre o seu uso. “Ímpar” pode ser lido tanto por uma criança que o encontra na prateleira da biblioteca, e se interessa pelo livro, seja pelo motivo que for; quanto por outra que vai para a escola e é obrigada a lê-lo porque a professora, com uma visão pedagógica, acredita que irá conscientizar o aluno de que não deve ter preconceito. A criança que ler por obrigação vai perceber que está sendo ensinada, e passará a acreditar que os livros só servem para isso, afastando-se deles. Concluímos, então, que por mais adaptação que se faça, e por mais perto que se chegue da realidade da criança, de nada adiantará, se a leitura for feita de forma incorreta, pois seus resultados serão influenciados de forma definitiva pela sua aplicação.


CUNHA, Marcelo Carneiro da. Ímpar. Porto Alegre: Projeto, 2002.

GOMES, Ana Maria Paula Marques. A importância da resiliência na (re)construção das famílias com filhos portadores de deficiência: O papel dos profissionais da educação/reabilitação. Repositório Institucional da ESEPF, 2006.
Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2008.

SILVEIRA, Rosa Maria Hessel. Nas tramas da literatura infantil: olhares sobre personagens diferentes, UFSC, 2003. Disponível em: Acesso em: 31 out. 2008.

ZILBERMAN, Regina. A literatura Infantil na Escola. São Paulo: Global, 11ª ed., 2003.

IM INCLUIR PAR

Autor: Daniel Toffoli




A obra literária Ímpar aborda um tema delicado e que está presente na vida de muitos adolescentes, a deficiência física. Alguns destes jovens fazem parte das pessoas chamadas no livro de “ímpares”, ou seja, que têm alguma deficiência, seja por terem nascido com ela ou tenham adquirido por causa de uma doença ou em um acidente de trânsito. A grande maioria, os ditos normais, os “pares”, convivem ou conviveram com algum colega, amigo, parente, que apresenta alguma limitação desta natureza, por isso, é uma situação que diz respeito a todos nós.

Zóli perdeu seu braço em um acidente, estava com sua mãe que dirigia o carro, quando, um motorista embriagado, passou o sinal vermelho e os acertou em cheio. A mãe de Zóli sentia muita culpa pelo acidente e o ocorrido com o filho, mas estava consciente que dirigiu com cuidado, entretanto a culpa não era dela, e sim, do motorista. O acidente poderia ter sido evitado se aquele motorista irresponsável, não tivesse bebido a relação entre álcool e direção não combina. Assim, desde pequenos, os leitores prestarão atenção nesse aspecto, não se bebe quando se dirige, talvez alertem seus pais. Pode parecer que, apenas um parágrafo em um livro, não vai fazer diferença, mas, é um ótimo começo para divulgar esta idéia, juntamente com as campanhas feitas sobre o tema junto à comunidade e nos meios de comunicação vão reforçar esta boa conduta de que: bebida e direção não têm a ver.

Depois do acidente, Zóli se viu aleijado, palavra de tom pejorativo, mencionada pelo protagonista, que suscita incapacidade, inutilidade, ter uma deformação física, mas na verdade, o indivíduo, em muitos dos casos, apenas tem limitações, é muito diferente ser deficiente físico que supera suas limitações e está incluso na sociedade de um “aleijado” que se vê um coitadinho. Em um momento, Zóli não sabia se queria um braço artificial, ficou sem, o braço biônico, que alia a tecnologia ligada à praticidade ainda está em fase inicial.

Há aqueles que não se deixam abater e superam as adversidades, igualam ou até superam muitos daqueles ditos normais, na capacidade em desempenhar determinada atividade, função, ou mesmo em produtividade. A narração trata da superação como meio de incluir no mesmo universo, os “normais” e deficientes, cada um adquirindo seu espaço devido a seus méritos. Retrata o esforço de um menino em quebrar barreiras, de ir além do seu limite.

Ser aceito pelos “pares” é a conseqüência da demonstração pessoal de que se pode chegar muito além do que se imagina e que se lamentar é o mesmo que dizer que os outros são melhores do que ele e que sua existência é vã. Fica claro no livro que alguns não aceitam sua diferença e que olham torto, riem, debocham, entretanto, a força da vontade de vencer, juntamente com o apoio da família, fazem dele um campeão.

É fácil entender que, depois de uma perda, os primeiros momentos sejam difíceis, a pessoa já não é mais a mesma, ela deverá se adaptar ao mundo, terá a partir de então, uma nova relação com as pessoas, com as tarefas rotineiras como, no caso de Zóli: vestir-se, jogar tênis (esporte que tanto gostava de praticar) e como se comportar diante das pessoas (a aceitação de sua deficiência e limitações). O episódio que demonstra essa condição foi quando conversou em uma festa com Lisa, garota dita normal, uma supergarota. Ao falar com a ela, Zóli estava um pouco de lado, virado do lado do braço bom, sentia vergonha de mostrar que era um pouco diferente e, quando ela o convidou para dançar, não sabia o que fazer, mas foi salvo pela mãe da menina que a chamou para irem embora. Ele era muito jovem para saber lidar com tantas situações novas impostas pela vida, assim, de repente, era um pouco “diferente”, mas não por muito tempo, estava em processo de auto-aceitação e aprendizagem dos seus limites, como qualquer pessoa.

Em diversas passagens, são descritas situações que enfrenta um portador de deficiência física que está se adaptando à nova realidade, a transposição de barreiras emocionais, como a coragem de lutar para exigir seus direitos quando foram ao cinema, buscaram acesso livre a atividades culturais, de lazer, já que não possuía rampa ou a porta adaptada e fizeram uma manifestação. Essa coragem de lutar, que aprendeu com seus amigos deficientes, foi a mesma que o fez acreditar em seu potencial e participar da equipe de tênis da escola. Foram estes amigos que fizeram dele uma pessoa com a auto-estima, sua família estava do

seu lado, mesmo depois da crise emocional que passaram depois do acidente. Os amigos que muito lhe ajudaram foram: Bibiana, Pê, Máqui, Tula.

Um tema secundário abordado em Ímpar é o primeiro beijo de José Luiz, mais conhecido como Zóli. Essa descoberta é comum para a faixa etária dos adolescentes ou pré-adolescentes. Enquanto seus amigos demonstravam que, apesar da deficiência, ficavam, inclusive com pessoas “pares”, ele ainda não tinha beijado; se apaixonou por uma menina que se chamava Lisa, ela era “par”, mas entendia a situação de Zóli, principalmente quando se destacou e se classificou no campeonato de tênis. Foi quando ela veio perguntar se ele iria com alguma garota na festa de comemoração. Lá chegando, eles ficaram sozinhos e quando ela já estava pronta para beijá-lo, ele sai rapidamente, notou que não gostaria de estar ali naquele momento e que a supergarota era a Bibiana, aquela “ímpar” que, chateada, acabou ficando em casa. Zóli pegou um táxi e foi para casa da Bibi, foi lá que deram o primeiro beijo.

A história é fascinante, é escrita em linguagem acessível ao público infanto-juvenil, com elementos conhecidos por estes, como: ICQ, programa que trabalha on-line em que dois ou mais usuários se comunicam em tempo real, trocam mensagens e arquivos; Mac Donald's, rede de lanches fast food muito frequentada por essa faixa etária ; Cinemark, rede de cinemas; escola; festa e ônibus adaptado( alguns avanços já foram alcançados para uma maior inclusão). Palavras e expressões coloquiais, da fala, como: “A gente não é uma galera?”; “doeu pra caramba”, “...mas nada de mico.”; “...ela ficou muuuito brava.” promovem a identificação do público leitor.

O livro é ilustrado, quem olha rapidamente pensa estar vendo o mesmo desenho no começo de cada capítulo, mas o ilustrador optou por alternar os personagens em cada um deles. O tamanho de letra é grande se comparado com livros técnicos, por exemplo.

A presença de diálogos no texto reproduzem a linguagem informal do adolescente e proporcionam um ritmo dinâmico à narrativa. As frases, em geral, são apresentadas na ordem direta: sujeito, verbo, complemento e oração principal e subordinada na ordem adequada. Segundo Schopenhauer (2005), as orações subordinadas interrompem a idéia original, dão um aspecto prolixo ao texto, se interrompe a frase para colocar uma outra no meio. Da maneira como o texto foi escrito, a fluidez é mantida e, conseqüentemente, o interesse do jovem leitor pelo enredo. O encadeamento linear das ações e idéias, as breves descrições e a ausência de reflexões profundas, faz deste, um texto adequado ao público infanto-juvenil.

O narrador da história é narrador-personagem e protagonista, conta uma história vivida por ele, com suas impressões, sensações e sentimentos à respeito dos acontecimentos. É um livro atual, aborda o tema do transplante de medula, da forma que o adolescente entenda. Relata das dificuldades da Bibiana, que tem um problema para andar, o osso da perna que encaixa na bacia dói quando ela anda, mas tem possibilidade de fazer uma cirurgia. Com esse exemplo, podemos entender um pouco como estas pessoas fazem, a partir de uma limitação, a superação diária, mesmo que tenham que suportar a dor.

O Humor está presente em alguns trechos, há uma brincadeira com a questão da deficiência, porém de uma forma sutil, visto que, o politicamente correto, é a ditadura do comportamento (dito na mídia), há momentos que todos precisamos descontrair.

Depois do acidente Zóli tinha parado de ler um livro que tinha um pirata da perna de pau, ele era “ímpar”, a história era meio de assustar, mas ele era bem legal. Começava cada vez a se aceitar mais, até ajudou em casa com as tarefas domésticas.

Ímpar é um livro singular ao tratar com tanta delicadeza e otimismo a questão da deficiência física, ele indica soluções, acalenta corações tempestuosos pelo desespero do que não se pode mais.

REFERÊNCIAS


D'ONÓFRIO, Salvatore. Teoria do Texto 1. 2. ed. São Paulo:Ática, 2006.

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2005.

TECNOLOGIA. Disponível em:
Acesso em: 13/11/2008.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

HARRY POTTER, UM CONTO DE FADAS CONTEMPORÂNEO?

HARRY POTTER, UM CONTO DE FADAS CONTEMPORÂNEO?

Paulo Ricardo Bandeira Christofoli


Ao lermos o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal, nos defrontamos com algumas perguntas. O livro é bom? Essa literatura é adequada ao público infanto-juvenil? A obra atende às premissas básicas para essa literatura? O sucesso do livro é somente devido a toda uma estratégia da mídia? Por que milhões de crianças, jovens e até adultos tornaram-se adeptos fervorosos das aventuras do jovem bruxo?

Embora seja um mundo ficcional, existem vários fatores político-sociais inseridos na obra. A autora, apesar de ser britânica, acabou vivendo sua adolescência num mundo marcado por ditaduras capitalistas e socialistas, onde os que se opunham ao sistema eram perseguidos. As mortes causadas por [1]Voldemort fazem uma analogia à situação mundial onde a autora cresceu.

Ao analisarmos a estrutura dos livros de J. K. Rowling, sobre a saga de Harry Potter, verificamos inicialmente que eles não atendem a todas as características de uma literatura infanto-juvenil.

Conforme Regina Zilbermann, no capítulo “A traição ao leitor”, de seu livro “A literatura infantil na escola”, a obra deveria valer-se de parágrafos curtos, sintaxe adequada, uso de ilustrações, tamanho do livro. O que vemos em Harry Potter e a Pedra Filosofal é exatamente uma antítese de algumas dessas características. Os parágrafos são longos, o livro possuí 263 páginas sem nenhuma ilustração:

Uma brisa arrepiou as cercas bem cuidadas da rua dos Alfeneiros, silenciosas e quietas sob o negror do céu, o último lugar do mundo em que alguém esperaria que acontecessem coisas espantosas. Harry Potter virou-se dentro dos cobertores sem acordar. Sua mãozinha agarrou a carta ao lado mas ele continuou a dormir, sem saber que era especial, sem saber que era famoso, sem saber que iria acordar dentro de poucas horas com o grito da Sra. Dursley ao abrir a porta da frente para pôr as garrafas de leite do lado de fora, nem que passaria as próximas semanas levando cutucadas e beliscões do primo Duda ... ele não podia saber que, neste mesmo instante, havia pessoas se reunindo em segredo em todo país que erguiam copos e diziam com vozes abafadas:
- A Harry Potter: o menino que sobreviveu! (ROWLING, 2000, p.20)

Como vemos no parágrafo acima a autora utiliza-se de nexos coordenativos e subordinativos, diferentemente da linguagem utilizada, por exemplo, na obra “A Bolsa Amarela”, de Lygia Bojunga, que muitas vezes, nesta, utiliza orações justapostas como no exemplo abaixo:

A bolsa por dentro:
Abri devagarzinho. Com um medo danado de ser tudo vazio. Espiei. Nem acreditei. Espiei melhor ( BOJUNGA, 1997, p.27).

Essas orações justapostas aproximam-se mais da oralidade e escrita da criança. A linguagem do livro A Bolsa Amarela, inclusive, é uma das características mais marcantes.

Mas apesar de utilizar parágrafos longos, a linguagem utilizada em Harry Potter é coloquial, lúdica, com uma sucessão de acontecimentos fantásticos criando um ritmo acelerado na narrativa tão presentes no cotidiano atual das crianças e jovens do nosso tempo.

A obra Harry Potter sofre inúmeras críticas com relação ao seu conteúdo, no qual é apontado, por alguns analistas e escritores, como sendo uma cópia de estruturas já muito utilizadas, repleta de clichês e sem profundidade, uma obra rasa. Harold Blomm, crítico americano, tratá-a como sendo “... infindável seqüência de clichês... É apenas ficção barata” (apud JACOBY, 2000).

Marina Colasanti (apud JACOBY, 2000) critica a questão da mídia e das estratégias agressivas de marketing utilizadas para divulgação da obra como está sendo encomendada.

Ana Maria Machado (apud JACOBY, 2000) fala da pouca originalidade da obra que retoma elementos batidos na tradição da literatura infanto-juvenil.

Na verdade, após a exposição de alguns pontos de vista de renomados escritores criticando a obra, levantamos a seguinte questão: Harry Potter é somente isso?

Seria possível que milhões de leitores espalhados pelo mundo, das mais variadas faixas etárias fossem contagiados pela exposição da mídia no processo de globalização dos bens de consumo? Seria possível que algo tão ruim fizesse com que crianças lessem 263 páginas no primeiro livro e após outras milhares contidas na seqüência dos outros seis volumes?

Ana Maria Machado, ao mesmo tempo em que critica a falta de originalidade da obra, também diz:

[...] é inegável que a série Harry Potter é bem construída, dosa bem [...] os clichês todos, tem ótimo ritmo e é muito gostosa de ler, mesmo sendo previsível aqui e ali. Ou seja, é divertimento de primeira qualidade (MACHADO, 2001, p. 219).

Outros críticos saíram em defesa da obra. No livro [2]Além da Plataforma Nove e Meia, Isabelle Smadja, estudiosa francesa, afirma:

[...] constitui em um conto de fadas moderno, capaz de atualizar com competência sua função simbólica, já há muito tempo apontada por psicólogos (especialmente por Bruno Bettelheim) como das mais benéficas na formação das crianças, ao auxiliá-las a elaborar as suas mais diferentes emoções e a fortalecer sua identidade (JACOBY e RETTENMAIER, 2005, p.30).

Já Pedro Bandeira (apud JACOBY, 2000), escritor de literatura infanto-juvenil brasileira, afirma que a autora J. K. Rowling possui um profundo conhecimento da psicologia das crianças.

Entre os prós e os contras, afinal, o que teria nessa obra atraído com grande eloqüência crianças e jovens no mundo inteiro?
Passaremos a falar agora do assunto abordado na obra Harry Potter e a Pedra Filosofal, que em nosso entendimento está internalizado no imaginário infantil e por isso, seja talvez, o ponto vital para o seu sucesso.

A história se desenvolve sob a perspectiva de um herói infantil, ou seja, as personagens principais são crianças que vão descobrindo suas identidades durante o transcorrer do enredo. As ações são praticadas pelas crianças deixando para os adultos o papel secundário de auxiliá-las, porém, enxergando nelas seu potencial.

A narrativa do texto é feita através do olhar da criança sendo esse um dos fatores positivos para que não ocorra a traição ao leitor uma vez que está dentro da realidade e anseios do leitor.

Analisando a obra na ótica dos elementos constantes no conto de fadas observamos que a mesma traça um roteiro bem elaborado, fazendo um resgate do gênero.

A onipresença da metamorfose se dá não somente na transformação dos personagens, que passam do estágio da pré-adolescência para a adolescência no decorrer das obras, mas também em outros elementos da narrativa, tais como, paredes que viram passagens, animais que se transformam em pessoas e etc.

O uso de talismãs está presente em toda a obra para auxiliar as personagens principais a resolverem mistérios, abrirem novos caminhos. Harry por exemplo utiliza-se de uma capa que lhe dá a invisibilidade. Em O Prisioneiro de Azkaban, terceiro livro da série, Hermione utiliza um objeto chamado vira-tempo, que possibilita retornar no tempo auxiliando na resolução dos mais variados problemas.

A força do destino é uma constante na vida do pequeno bruxo. Desde o início da obra fica claro que Harry Potter tem um destino delineado, não por completo, pois são suas ações que dão à tônica e a dinâmica na narrativa. A própria marca na testa do herói já identifica que ele tem um destino a cumprir. A passagem abaixo, dita pela professora Minerva referindo-se a Harry Potter, do capítulo um do primeiro livro, serve de ilustração:

Essas pessoas jamais vão entendê-lo! Ele vai ser famoso, uma lenda. Eu não me surpreenderia se o dia de hoje ficasse conhecido no futuro como o dia de Harry Potter. Vão escrever livros sobre Harry. Todas as crianças no nosso mundo vão conhecer o nome dele! (ROWLING, 2000, p. 17).

O desafio do mistério ou do interdito é uma das abordagens principais presentes em todas as sete obras da escritora. Alguns mistérios vão passando de livro para livro fazendo com que o leitor fique na expectativa de qual solução será dada para determinada situação.

Através da magia os personagens vão ultrapassando as dificuldades que lhes são impostas. Tal qual nos contos de fadas, o leitor infanto-juvenil vai se identificando com o texto e trazendo-o para sua realidade na tentativa de encontrar soluções para seus problemas e ansiedades.

Bettelheim, em seu livro “A psicanálise dos contos de fada”, diz que nas horas difíceis, jovens leitores podem encontrar conforto como os heróis das histórias:

Esta é exatamente a mensagem que os contos de fada transmitem à criança de forma múltipla: que uma luta contra dificuldades graves na vida é inevitável, é parte intrínseca da existência humana, mas que se a pessoa não se intimida e se defronta de modo firme com as opressões inesperadas e muitas vezes injustas, ela dominará todos os obstáculos e, ao fim, emergirá vitoriosa (BETTELHEIM, 2002).

Os vilões nas histórias infantis matam, lutam e ferem. Em Harry Potter isso também ocorre, porém, um novo tipo de vilão nos é apresentado, os Dementadores (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban). Eles são capazes de causar uma profunda tristeza fazendo que sua vítima chegue na mais profunda depressão, sugando-lhes a energia e suas lembranças boas.

Na série dos livros de Harry Potter vários elementos e passagens constantes nos contos de fadas são apresentados.

No início do primeiro livro, Harry é tratado pelos seus tios, os Dursley, como serviçal da família. Seu quarto fica em baixo da escada e o menino recebe os restos de seu primo Duda. Aqui traçamos uma analogia ao conto “Borralheira”, de Charles Perrault. Esse tratamento utilizado tanto em Harry Potter quanto em Borralheira, relatam muito bem as experiências internas da criança pequena nos espasmos da rivalidade fraterna, quando ela se sente desesperadamente marginalizada pelos irmãos e irmãs ( no caso de Harry, pelo primo Duda). A madrasta sacrifica os interesses de Borralheira em favor dos das irmãs; deve executar os trabalhos mais sujos e mesmo fazendo-os bem, não é aceita por elas. Os tios de Harry assumem o mesmo papel da madrasta.

Em outro momento do livro, o pequeno bruxo pára diante de um espelho que reflete os seus desejos mais profundos. Na obra Branca de Neve, a rainha utiliza-se de um espelho para saber se é a mais bonita do reino. A rainha em Branca de Neve é movida pela vaidade, repetindo o tema antigo de Narciso. No caso de Harry Potter, sua motivação é de recuperar o carinho e a presença de seus pais. Em ambos os casos o espelho é usado como fonte para refletir e encontrar suas aspirações.

Assim como Narciso, que só amava a si mesmo, de tal forma que foi tragado pelo auto-amor, o espelho de [3]Ojesed tem o poder sobre Harry Potter de fazer o personagem penetrar no mundo da imaginação esquecendo do mundo que o cerca. O personagem, assim como Narciso, certamente definharia em frente ao espelho maravilhado pela sensação de prazer que o reflexo lhe trazia, mas no caso do livro a autora deu outra solução fazendo com que Alvo Dumbledore o trouxesse novamente para realidade.

O espelho vai ser levado para uma nova casa amanhã, Harry, e peço que você não volte a procurá-lo. Se algum dia o encontrar, estará preparado. Não faz bem viver sonhando e se esquecer de viver, lembre-se (ROWLING, 2000, p. 184).

A plataforma nove e meia, que não pode ser vista pelos trouxas (conforme definição do livro, trouxas significa quem não é bruxo), conduz para a estação do trem que leva os alunos para Hogwarts (a escola dos bruxos). Seria uma passagem para outra dimensão, assim como em [4]Peter Pan e sua Terra do Nunca.

Em Hogwarts, assim como na Terra do Nunca, Harry encontra o seu lugar, sua verdadeira casa, iniciando assim a busca pela sua identidade. Ao chegar em Hogwarts, Harry depara-se com outro mundo, onde todos são bruxos e todos têm conhecimento da cultura desse meio. Harry, porém, continua a sentir-se deslocado, uma vez que foi criado por uma família “normal”. Essa busca pelo seu conhecimento atravessa a história na narrativa. O primeiro sinal de encontro consigo mesmo é dado quando o personagem aprende a voar na vassoura.

[...] Ele montou a vassoura, deu um impulso com força e subiu, subiu alto, o ar passou veloz pelo seu cabelo e suas vestes se agitaram com força para trás – e numa onda de feroz alegria ele percebeu que encontrará alguma coisa que era capaz de fazer sem ninguém lhe ensinar – isto era fácil, era maravilhoso (ROWLING, 2000, p.130).

A pedra filosofal, objeto principal do primeiro livro, é um elemento místico procurado durante anos pelos alquimistas da idade antiga. Esse elemento transformaria qualquer metal em ouro e traria vida eterna para quem o possuísse. Nicolau Flamel, que é citado no livro, como quem teria criado a pedra, foi um alquimista real que viveu no século XII que dedicou suas pesquisas no intuito de desenvolver tal elemento.

No segundo livro da série, Harry Potter e a Câmara Secreta, Harry e a família Weasley utilizam-se de um pó mágico para transportarem-se para outro lugar. A fada Sininho, na obra Peter Pan, também utiliza um pó mágico que tem o poder de fazer as crianças voarem servindo como transporte para a Terra do Nunca.

Na obra de Monteiro Lobato o narrador apresenta o pó de pirlimpimpim numa cena em que o menino invisível, Peninha, convida Pedrinho a partir para o velhíssimo mundo das maravilhas.
Um tema abordado no segundo livro é o da discriminação. Hermione (companheira de Harry) sofre pelo fato de “não ser pura”, uma vez que seus pais não são bruxos.

A presença feminina na obra também é explorada pela autora J. K. Rowling. Vejamos. Uma das melhores amigas de Harry é Hermione, uma menina capaz de ultrapassar as dificuldades através do estudo e dedicação. A mãe de Harry deu sua vida por amor para salvá-lo. A Sra. Weasley, mãe de Rony, amigo inseparável de Harry, vai assumindo no transcorrer das obras o papel de mãe adotiva da personagem. Esse sentimento da Sra Weasley fica evidenciado no livro Harry Potter e a Ordem da Fênix:

- Bom – começou ela, dando um longo suspiro e olhando ao redor à procura de um apoio que não veio – bom... estou vendo que vou perder. Mas vou dizer só uma coisa: Dumbledore deve ter tido suas razões para não querer que Harry soubesse demais, e falando como alguém que quer o melhor para Harry...
- Ele não é seu filho – disse Sirius em voz baixa.
- É como se fosse – respondeu ferozmente (ROWLING, 2003, p 78).

A professora Minerva acredita no potencial do menino e o auxilia a enfrentar as dificuldades impostas pelo caminho. É ela quem indica Harry para participar do time de quadribol, fato este que elevaria a moral do menino.

- Harry Potter, esse é Olívio Wood. Olívio... encontrei um apanhador para você.
A expressão de Olívio mudou de confusão para prazer.
- Está falando sério, professora?
- Seríssimo – resumiu a Profa. Minerva. – O menino tem um talento natural. Nunca vi nada parecido. Foi a primeira vez que montou numa vassoura, Harry? (ROWLING, 2000, p. 132-133).

Essas personagens femininas são de vital importância para formação do caráter e crescimento de Harry Potter.

Outra analogia possível de ser feita da obra Harry Potter é com “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato. A obra de Monteiro Lobato foi um sucesso no Brasil quando do seu lançamento.

Em ambas as obras seus autores deram voz às crianças, utilizando-se de recursos fantásticos para animações de objetos, brinquedos e animais. Aqui vemos mais uma característica descrita por Piaget, o animismo, na qual a visão de mundo que os contos trazem é igual à da criança.

Monteiro Lobato internou em sua obra várias passagens dos contos de fadas e figuras da mitologia. Seus personagens principais são crianças e a figura do adulto apenas acompanha o desenvolvimento da ação como espectadores.

A personagem Tia Anastácia, por exemplo, mesmo sendo adulta, é a que mais se aproxima do mundo infantil, sendo inclusive a detentora do acervo cultural de lendas do passado. Em Harry Potter, o personagem Hagrid, um gigante adulto que tem atitudes e ações infantis, é o que mais se aproxima dos protagonistas da história. Assim como Tia Anastácia, Hagrid também é o responsável por repassar as histórias antigas.

A escritora J. K. Rowling, na narrativa dos livros, utilizou-se de diversas mitologias, dentre elas a grega, romana, egípcia e nórdica.

O professor Dumbledore, possuí um animal muito raro, uma Fênix. Com origem na mitologia egípcia, essa criatura tinha a particularidade de se destruir no fogo e renascer das suas próprias cinzas. Esse animal aparece no segundo livro, Harry Potter e a Câmara Secreta.

O nome do professor Remus Lupin, professor de defesa contra as artes das trevas no terceiro livro, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, está associado à lenda da mitologia romana de Romulus and Remus (Rômulo e Remo), os dois gêmeos que foram amamentados por uma loba até serem encontrados por um casal de lavradores. Este nome também está relacionado com o fato do personagem se transformar em lobisomem.

Os Centauros da floresta proibida (já aparecem no primeiro livro Harry Potter e a Pedra Filosofal), são associados à mitologia grega. O centauro também simboliza o conflito humano entre a razão e o instinto animal.
O nome da professora Minerva, vem da mitologia grega ou romana que quer dizer também Atena (filha de Zeus), a deusa das artes e dos ofícios, que ensina aos comuns mortais. Minerva era uma deusa que primava pela perfeição sendo uma das características da personagem na obra.

A figura do cão de três cabeças de Hagrid, também vem da mitologia grega ou romana e além de três cabeças tinha muitas caudas e tinha a função de proteger a entrada do mundo inferior de todos os intrusos do mundo superior. Na obra Harry Potter e a Pedra Filosofal, o cão de três cabeças tem a função de guardar o alçapão onde a pedra filosofal está escondida.

O nome Hermione quer dizer eloqüência, inspirado na mitologia grega. Hermione era filha de Helena de Tróia. Na obra, Hermione é amiga de Harry e de Rony e é muito aplicada nos estudos.

Também nos nomes dos feitiços utilizados pelos bruxos a autora utilizou-se de elementos da mitologia.

O feitiço Aparecium vem do latim e tem a função de tornar visíveis objetos, tinta ou pessoas; na mitologia era algo relacionado com as boas colheitas, as pessoas rezavam aos deuses e diziam Aparecium para que os deuses lhe concedessem boas colheitas.

O feitiço Colloportus vem do latim e tem a função de trancar as fechaduras de portas ou de arcas e era mencionado em episódios do cotidiano da mitologia grega, quando os patrões/pais pediam aos seus criados/filhos para fecharem a porta de uma casa.

O termo animagus que vem do latim e designa o dom de um feiticeiro de se transformar em animal. Sirius Black, em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, transformava-se em um cão preto. Na mitologia grega ou romana simbolizava os humanos que eram transformados em animais pelos deuses. Tinham alma de humanos e corpo de animais.
A identificação dos leitores com a série Harry Potter está vinculada a vários elementos utilizados pela autora em sua obra.

Inicialmente, o fato da personagem principal ser órfã, está fortemente ligado a cultura contemporânea da criança ser criada em frente à televisões, por babás, sem a presença constante dos país.

O fato de Harry ser uma criança frágil e deslocada, mas apesar disso enfrentar e vencer os obstáculos que lhe são apresentados é outro fator de identificação do leitor.

A ação toda ocorre em uma escola, onde crianças e adolescentes passam a maior parte do seu tempo sendo também outro fator importante. As situações que ocorrem nessa escola estão diretamente relacionadas com a realidade que a criança e o adolescente contemporâneo vivem. Formação de grupos, os bons e os maus, disputas, indisciplina e finalmente a relação entre meninos e meninas marcantes na pré-adolescência. A passagem abaixo do livro Harry Potter e o Cálice de Fogo, quarto livro da série, quando os alunos estavam se preparando para o baile de inverno, serve como ilustração dessas relações:

Uma terceiranista da Lufa-Lufa, de cabelos crespos, com quem Harry jamais falara na vida, convidou-o para ir ao baile com ela, logo no dia seguinte. Ele ficou tão surpreso que respondeu “não” antes mesmo de parar para refletir sobre o convite. A garota se afastou parecendo bem magoada, e Harry teve que aturar as piadas de Dino, Simas e Rony sobre ela durante toda a aula de História da Magia. No dia seguinte, mais duas garotas o convidaram, uma do segundo ano e (para seu horror) uma do quinto ano, que parecia ser capaz de nocauteá-lo se ele recusasse (Rowling, 2001, p. 309).

Finalmente, o elemento mágico desperta no leitor a sua imaginação, provocando sentimentos comuns, tais como, raiva, medo, escolha entre o bem e o mal do certo e o errado.

A intenção desse ensaio não foi de fazer comparações entre obras consagradas da literatura infantil e infanto-juvenil de autores como Hans Christian Andersen, Charles Perrault, Monteiro Lobato, mas sim de demonstrar a importância da obra de J.K. Rowling no cenário atual da literatura.
Afinal, Harry Potter é um conto de fadas contemporâneo?
Talvez somente o tempo poderá responder a essa pergunta.



























[1] Voldemort é o bruxo que matou os pais de Harry Potter, mas acabou sendo vencido por ele quando ainda bebe. Durante toda a saga estará presente e será o pivô da luta entre o bem e o mal.
[2] Além da Plataforma Nove e Meia: Pensando o fenômeno Harry Potter. Organizadores: Sissa Jacoby e Miguel Rettenmaier.
[3] O espelho de Ojesed aparece em dois momentos na obra Harry Potter e a Pedra Filosofal. Em um primeiro momento ele atrai Harry refletindo lembranças dos seus pais; no final da obra, quando Harry enfrenta Voldemort na disputa pela posse da pedra filosofal, ajuda o pequeno bruxo na solução do problema.
[4] Peter Pan foi um personagem criado por J. M. Barrie e apareceu pela primeira vez ao mundo em 1902, num livro intitulado The Little Bird.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O determinismo como influência na construção

O determinismo como influência na construção
dos retratos humanos em “O cortiço”
Vanderléia Costa

O cortiço, escrito por Aluísio Azevedo em 1890, é a obra que melhor representa a estética naturalista no Brasil.
Das principais características deste estilo literário, que foi um prolongamento do Realismo, temos o Determinismo em todos os seus desdobramentos: do meio ambiente, do instinto e da hereditariedade. Da mesma forma, podemos perceber que o autor foi altamente influenciado pelo Evolucionismo, ou seja, os preceitos defendidos por Darwin de que as espécies se derivam mutuamente e são resultado da seleção natural. Assim como o Positivismo, onde o que impera é o predomínio da observação.
De acordo com o Evolucionismo, o narrador apresenta na sua visão naturalista o ciclo da vida humana: procriação, nascimento, existência sob o domínio dos instintos, e morte. Essa seqüência podemos observar pelo trecho:
“À proporção que alguns locatários abandonavam a estalagem, muitos pretendentes surgiram disputando os cômodos desalugados. Delporto e Pompeo foram varridos pela febre amarela e três outros italianos estiveram em risco de vida. O número dos hóspedes crescia, os casulos subdividiam-se em cubículos do tamanho de sepulturas e as mulheres iam despejando crianças com uma regularidade de gado procriador,”pág.119.
Influenciado pelo Determinismo e pelo Positivismo, o autor cria os seus personagens, ou melhor, observa-os como se estivessem em um laboratório de análise científica. Quase todos os personagens em O cortiço sofrem com ação do meio, é como se o ambiente fosse o personagem principal da obra, ele determina as características e o estado de cada indivíduo.
Portanto, o ambiente em que se passa a obra, um cortiço, é realmente muito significativo, pois se tem a idéia de que ele “germina” os personagens, que brotam como plantas ou procriam-se como animais, como podemos verificar pela seguinte passagem:
“E, naquela tarde encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco”, pág. 28.
As características naturalistas apresentadas anteriormente são muito importantes para entendermos os retratos humanos representados na obra, porque afinal os personagens viviam para e com o meio.
No patamar de papel importante e sobressaliente na obra, poderíamos destacar vários, desse modo começaremos falando sobre João Romão, o idealizador da estalagem.
Romão é o personagem que vence o meio. Com sua ganância, mesquinharia e avareza, ele abre mão do conforto no início para alcançar um ideal de nobreza . Para ele, não bastava ser rico e poderoso, João Romão queria ser titulado nobre, e para alcançar esse objetivo ele passou por cima de quem quer que fosse. Cometeu pequenos furtos no início com a ajuda de Bertoleza, enganou seus clientes no peso e na medida dos produtos que vendia em sua mercearia, emprestava dinheiro a juros altos. Além disso, empregava os trabalhadores em sua pedreira com a condição de que morassem em sua estalagem e comprassem em sua mercearia, com isso, tudo se transformaria em uma grande engrenagem, onde o dinheiro que saía para o pagamento dos trabalhadores retornaria para as suas mãos.
Não se pode negar que ele é um personagem muito determinado, usou de sua determinação e força física para alcançar seus interesses, porém não levou ninguém com ele, ao contrário, usou de quem pode, tudo, e sugou até a última gota o suor de sua companheira Bertoleza.
João Romão necessitava de alguém para lhe ajudar, e a escrava Bertoleza “caiu como uma luva”. Por isso, Romão forjou uma carta de alforria para que a escrava pudesse lhe servir, imaginado que estava livre.
A personagem Bertoleza retrata um tipo humano feminino de servidão e acomodamento, típico da época em que a obra foi escrita.
A ganância que impelia o personagem de João Romão não fazia parte das características desta mulher. Não que ela não tivesse ideais, pois queria ser aceita como mulher de um homem português, considerado de uma raça superior a sua, isso a fazia sentir-se mais valorizada e a estimulava a labutar diariamente como um animal de carga. Essa afirmação pode ser comprovada pelo trecho:
“Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel tríplice de caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mais de cara alegre; às quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o café para os fregueses e depois preparando o almoço para os trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um capinzal aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão da taverna quando o amigo andava ocupado lá por fora; fazia a sua quitanda durante o dia no intervalo de outros serviços e à noite passava-se para a porta da venda, e, de fronte de um fogareiro de barro, fritava fígado e frigia sardinhas, que Romão ia pela manhã, em mangas de camisa, de tamancos e sem meias, comprar à praia do peixe. E o demônio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e consertar, além da sua, a roupa do seu homem(...)”pág. 21.
Entretanto, assim como os animais sentem a rejeição do dono, Bertoleza percebeu que Romão tinha outros planos que não a incluíam, foi tornando-se amarga e trabalhando mecanicamente até o seu suicídio. Bertoleza, quando descobre que foi enganada e voltará a ser escrava, acha-se encurralada e, sem alternativa de fuga, mata-se em frente aos policiais que vieram capturá-la.
No entanto, outros tipos de personagens femininas compõem o retrato d’O cortiço. Em oposição à Bertoleza, temos a figura de Rita Baiana, que, ao contrário daquela que é dominada, esta domina o meio, manipula e desencaminha.
A semelhança entre Bertoleza e Rita Baiana está somente em sua descendência africana. Rita Baiana é a representação da terra, nesse caso do Brasil, o país que acolhe, encanta com suas formas, domina com seus costumes. Essa personagem age como uma aliada do determinismo, ela cativa a todos e desencaminha Jerônimo, mais por instinto do que por interesse.
Jerônimo é o personagem que faz um contraponto com João Romão, enquanto este vence o meio, aquele é vencido e desencaminhado. Os dois personagens são portugueses que vieram para o Brasil com o intuito de enriquecer; logo que chegam, devido à disposição de ambos para trabalhar e economizar, eles se assemelham. Porém seguem caminhos contrários, enquanto João Romão usa artifícios ilegais e imorais para alcançar seus objetivos; Jerônimo é o trabalhador honesto e responsável pai-de-família. Entretanto, sucumbido pelos encantos de Rita Baiana e dominado pelas influências do ambiente em que vive, não consegue manter suas convicções, suas características culturais e sua moral elevada por muito tempo. Na passagem a seguir podemos observar a transformação que o meio inculca no personagem.
“Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia dos seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar do que de guardar, adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres e volvia-se preguiçoso resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor, muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último tambor entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros.
E assim, pouco a pouco se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se” pág. 79.
Além dos personagens que já foram citados, temos uma personagem feminina muito representativa na obra, Pombinha, com suas características de menina meiga, doentinha, atenciosa e disposta a ajudar quem precisasse que lhe escrevessem uma carta (habilidade rara na época), não se encaixava naquele meio, naquele antro de perdição.
Influenciada pela mãe, Pombinha casa-se após longo período de espera que a natureza faça o seu papel de transformar a menina em mulher. Só que essa mesma natureza que transforma o corpo da menina a envolve em desejos que vão além de uma vida pacata como dona-de-casa, mãe e filha exemplar.
Pombinha deixa-se conduzir por seus instintos, sucumbe à luxúria e ao adultério. Sem outra alternativa para a sua vida, e a única que escolheu, junta-se a Léonie, uma famosa prostituta que desde o início nutre pela menina um profundo desejo.
Nota-se que o autor na tentativa de representar com veemência os vários tipos humanos e suas peculiaridades, abordava assuntos como o lesbianismo e a prostituição, que não tinham vez na literatura até então, assim como põe em cena os efeminados e homossexuais representado pelo personagem Albino.
Todos os personagens são descritos em sua forma mais rudimentar e minuciosa para prevalecer ainda mais a verossimilhança, como podemos constatar pela descrição do personagem Albino:
“Fechava a fila das primeiras lavadeiras o Albino, um sujeito afeminado, fraco, cor de espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa só linha, até o pescocinho mole e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem já estava tão familiarizado que elas o tratavam como uma pessoa do mesmo sexo(...)” pág.40.
Voltando-se para a descrição, temos em primeiro plano o meio em que vivem e são retratados os tipos humanos na mesma proporção em que o cortiço vai se transformando e evoluindo, seus moradores também.
Aqueles que não se encaixavam mais na nova estalagem iam, ou por vontade própria ou expulsos, abandonando seus cômodos e migrando para outra estalagem que recebe os “dejetos” da São Romão, o Cabeça-de-Gato.
Mudando o ambiente, muda a representação dos personagens, os moradores antigos são substituídos por outros, trabalhadores em geral, entretanto mais valorizados e culturalmente mais respeitados, como artistas, pintores, alfaiates, comerciantes, etc.
Na passagem a seguir podemos verificar bem essa mudança:
“E, como a casa comercial de João Romão, prosperava igualmente a sua avenida. Já lá se não admitia assim qualquer pé-rapado: para entrar era preciso carta de fiança e uma recomendação especial. Os preços dos cômodos subiam, e muito dos antigos hóspedes, italianos principalmente, iam, por economia, desertando para o Cabeça-de-Gato e sendo substituídos por gente mais limpa. Decrescia também o número das lavadeiras, e a maior parte das casinhas eram ocupadas por pequenas famílias de operários, artistas e praticantes de secretaria. O cortiço aristocrizava-se” pág 176.
Analisando esses personagens e seus respectivos retratos humanos da sociedade, na época em que foi escrita a obra, podemos verificar a forte influência do Determinismo na construção e desenvolvimento das características na descrição dos personagens e do meio social.
Segundo o fundador da estética naturalista, Émile Zola, o qual foi objeto de inspiração para Aluísio Azevedo, na sua obra Le roman experimental, publicada em 1880, afirma: “O romance experimental substitui o estudo do homem abstrato e metafísico pelo homem natural, sujeito a leis físico-químicas e determinado pela influência do meio”(D’Onofrio apud Zola,2002, pág.381).

Referências Bibliográficas
GONZAGA, Sergius. Manual de Literatura Brasileira; 11ª ed.. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1994.
D’ONOFRIO, Salvatore. Literatura Ocidental. São Paulo: Ática, 2002.
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Moderna, 1993.

O CORTIÇO

O CORTIÇO
Natália Alberici Arrais

Aluísio Azevedo, influenciado por Émile Zola, o pioneiro da escola literária naturalista, que considerava que o homem era produto do meio, da raça e do momento histórico, segue o estilo naturalista, retratando de maneira objetiva as características das personagens, desnudando as mazelas humanas e sociais.
Assumindo uma perspectiva do alto, Aluísio faz descrições precisas das personagens d’o Cortiço, fazendo deste uma personagem, que algumas vezes ganha vida, como no trecho: “Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas” (AZEVEDO, ALUÍSIO, 1890, p. 28).
Partindo da visão determinista, onde as pessoas são influenciadas pelo meio em que vivem, Aluísio dá características ao cortiço que determinam o comportamento dos indivíduos que ali vivem.
Uma personagem que foge a esse molde é João Romão, um português que explorava os moradores e uma escrava, a quem enganou com uma falsa carta de alforria. Sempre muito ambicioso, deixava de comer para guardar dinheiro. Seu objetivo era acumular e lucrar para enriquecer.
Quando teve oportunidade, engana Bertoleza, sua amiga, escrava que possuía uma quitanda. João Romão forja uma carta de alforria, oferecendo uma proposta à Bertoleza de viver com ele, se este cuidasse de seu dinheiro. Para Bertoleza era de grande valia viver com ele, pois não precisaria mais pagar vinte mil réis por mês ao seu dono, e aliás, considerava vantajoso submeter-se a alguém de raça superior a dela.
Bertoleza retratava a submissão dos negros da época, pois sentiam-se livres quando trocavam de donos, sem sequer saber o que era liberdade, pois continuavam a ser explorados da mesma forma. O fato de ter um dono de raça superior a sua, fazia com que Bertoleza ficasse mais feliz, sentindo grande prazer em trabalhar para João Romão. Enquanto este só se interessava em cuidar do dinheiro dela, pois é a partir dele que irá crescer economicamente.
Com a economia de Bertoleza, João Romão compra um terreno ao lado da venda, que já possuía, e à base de muito trabalho e exploração o cortiço crescia cada vez mais.
João Romão era um exemplo da nova classe que aparecia, que enriquece pelo trabalho e não por heranças, como o tradicional. João Romão não deixou influenciar-se pelo meio em que viveu, este até diferenciava-se e não deixava misturar-se com os moradores de seu cortiço. Ele é uma crítica ao capitalismo, pois é a vontade de enriquecer, não importa de que forma for, explorando outras pessoas.
Estimulado por esta crítica, está Miranda, vizinho do cortiço, dono de um sobrado e casado com Dona Estela. Após flagrar o adultério de sua mulher, Miranda decide não se separar dela, apenas viver em quartos separados, pois foi a partir da esposa que obteve uma vida melhor, por ela possuir dotes de 80 contos em prédios e ações da dívida pública. Além dos dotes, a separação seria um escândalo para família, decidindo acomodar-se em seu quarto individual. A crítica está na atitude de Miranda que mantém o casamento pelo interesse financeiro e para manter as aparências.
Miranda invejava a riqueza que João Romão construiu com o próprio trabalho, mas odiava a vizinhança que tinha, pois eram mulatos, pretos, lavadeiras, malandros, vadios, benzedeiras e assassinos.
Os moradores do cortiço representavam as mais diferentes figuras, porém todas elas tipos comuns, pobres e influenciados pelo meio em que viviam.
Entre essas figuras, quem mais sofreu com a influência do meio foi Jerônimo. Português, muda-se para o cortiço com sua esposa, Piedade, para trabalhar na Pedreira. Jerônimo era homem de caráter sério e de bons costumes trabalhador e honesto, saudosista e muito respeitador para com sua esposa que era muito fiel e submissa ao marido.
Seu caráter e seus costumes passam a se transformar quando vê Rita Baiana dançando. A partir daí, Jerônimo sofre o abrasileiramento, ao contrário de João Romão, degradando sua imagem. Passa a gostar das músicas, das comidas e dos costumes brasileiros. Passar a brigar com sua esposa, falta ao trabalho, bebe muito e a cada dia afeiçoa-se mais por Rita Baiana. Esta descrita como mulata sensual e provacante, característica atribuída à mulher de cor na época, era independente e rebelde, oprimia e seduzia os homens. Criticava o casamento, justificando que esse não era o seu destino, ser submissa a um homem. Rita destacava-se entre as mulheres do cortiço por sua sensualidade e por seus pensamentos, que contrariavam o modelo patriarcal. Suas características sempre destacadas eram sua cor e sua sensualidade. Descrição típica da época que valorizava muito a sexualidade e o corpo da mulher.
Outra mulher que cede à influência do meio é Pombinha. De início, uma “flor do cortiço”. Filha da lavadeira Isabel e noiva de João da Costa, possuía estudo e ajudava os moradores. Ainda não se casava porque sua menstruação ainda não tinha vindo. Menina acanhada e de bom comportamento, conhece Léonie, uma prostituta de alto nível. Sua ascensão social permitia transitar pelas ruas e teatros com seus amantes e, também, regressar ao cortiço para visitar sua afilhada. Léonie convida Pombinha a visitar sua casa, quando principia a sexualidade da menina, transformando os pensamentos desta.
Tempos depois, totalmente transformada e influenciada, Pombinha abandona o marido, junta-se a Léonie tornando-se prostituta, mostrando o quanto foi influenciada pelo meio em que vivia.
A obra apresenta como o meio influenciou grande parte das personagens. A forma como o autor identifica ou descreve as personagens, comparando-as com animais e/ou instintos animalizados, mostra a identificação das pessoas com o cortiço, diminuindo o valor das personagens moradoras do cortiço.
As personagens que não foram influenciadas pelo ambiente do cortiço, estavam do lado de fora deste, representando a sociedade elitizada que queria manter-se distante das pessoas “marginalizadas”, representando, também, o capitalismo, a vontade de crescer economicamente, não importando como, seja explorando o trabalho das pessoas ou roubando dinheiro delas.
O autor retrata o que realmente acontecia, o comportamento e os interesses das pessoas de ambas as classes.
Observamos que o estilo do cortiço e o comportamento das pessoas ainda permanecem atualmente. Favelas e periferias são o retrato ampliado de um cortiço; casas sem estrutura, aglomeradas umas com as outras; pessoas marginalizadas, com comportamentos irracionais; a ambição, a vontade de crescer economicamente, acima de tudo e pessoas estereotipadas, que vivem em razão da aparência.

AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. 6 ed. São Paulo: Ática, 1979.

BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. 43 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

AMPARO, Marília. Web Artigos. Disponível em . Acesso em 16 jun. 2008.

QUEIROZ, Alessandra. Web Artigos. Disponível em: . Acesso em 16 jun. 2008.

Klick Educação. Análise da obra. Disponível em: . Acesso em 16 jun. 2008.

Com todas as letras. Análise da obra. Disponível em: . Acesso em 16 jun. 2008.

Dados biográficos de Aluísio Azevedo. Disponível em: . Acesso em 16 jun. 2008.

A representação do negro no romance “O Cortiço”

A representação do negro no romance “O Cortiço”
“O que representam os personagens negros na obra de Aluísio Azevedo”
Por Karine Benites

A representação do negro na Literatura Brasileira é marcada pelo estereótipo e preconceito ao longo da época. Inexistente antes da abolição do tráfico de escravos, os negros passaram a ser representados pelos literários no final da fase indianista, época em que o espírito nacionalista era predominante. “O negro era de índole escrava, humilde e resignado, como aparece no romance de José de Alencar” (CASTILHO, 2004). Até mesmo os abolicionistas tinham dificuldade em verem positivamente os personagens negros, estereotipando-os, na fase naturalista, com exagerado tom imoral, descrevendo-os com feiúra e bestialidade, afirmando sua inferioridade tanto biológica como cultural. A mensagem que esses romances passavam é que “a companhia de negros não é saudável porque eles não controlam seus instintos animais, não tem moral e podem destruir a de quem tem, no caso, a moral dos brancos” (CASTILHO, 2004).
No livro “O Cortiço”, o escritor abolicionista Aluísio de Azevedo utilizou-se também dos estereótipos incumbidos à raça negra, o que podemos interpretar como uma crítica ou uma forma de demonstrar o nacionalismo. Sintonizado com o racismo científico em voga no século XIX chamado de Darwinismo_ teoria que afirma a existência de uma raça superior (a branca) e inferior (a escura) – o autor não escapou à observação racista de seus personagens, mostrando a preferência das mulheres negras em juntar-se aos brancos, no qual diziam ser uma “raça superior a sua”. Essa questão também é identificável na descrição dos “negros” e “mulatos”, pois o primeiro é caracterizado de forma negativa enquanto que o segundo se apresenta de forma mais positiva no romance.
Na vida do autor encontramos vários fatores que podem ter influenciado na construção dos personagens de sua obra. Aluísio de Azevedo nasceu no Maranhão, uma das regiões do Brasil com maior número de escravos e onde a cultura negra é muito forte; era filho de pais descasados o que, conseqüentemente, deve ter feito com que passasse por discriminações e preconceitos na sociedade em que viveu; morou no Rio de Janeiro, reconhecido como o berço do samba e do carnaval, e escreveu “O Mulato”, romance que marcou a primeira aparição do negro na literatura brasileira em contraposição aos escravistas de sua terra natal.
Proclamado como “O primeiro romancista de massas” da literatura brasileira, a cultura popular é retratada através dos personagens negros em “O Cortiço”: A comida, a música, a dança e algumas gírias são elementos dos costumes cujas origens estão registradas em nosso folclore de tradição africana.
A personagem Bertoleza, mulher trintona, negra e escrava, representa a sociedade escravocrata em processo de abolição e a vulnerabilidade social, pois mesmo estando supostamente “forra”, continua trabalhando como uma escrava e sendo submissa ao seu companheiro João Romão.O seu papel na obra possui várias interpretações: sob o ponto de vista positivo, a vida do português não teria melhorado e o Cortiço não existiria se Bertoleza não se juntasse a ele, pois foi com o dinheiro dela que o patrício pode comprar um terreno e fazer uma casinha para os dois morarem (antes disso ele dormia no balcão da venda).Na frase “O vendeiro nunca tivera tanta mobília” [...] (p.25),notamos a mudança significativa de condições que a ludibriada companheira lhe proporcionou, ajudando - o também na compra do terreno para o Cortiço.Podendo ter prosperado à custa do próprio trabalho em sua quitanda, Bertoleza ajuda a enriquecer o seu companheiro e é desprezada após o português ambicionar ares de nobreza e ascender na escala social.Neste momento aparecem os sentimentos, senso de justiça e auto - estima da personagem, quando conversou pela última vez com João Romão:

“_ Você está muito enganado, seu João, se cuida que se casa e ma atira à toa! exclamou ela. Sou negra, sim, mas tenho sentimentos! [...]”[...] “Você é fino, mas eu também sou![...]” “_Ora essa !Quero ficar a seu lado!Quero desfrutar o que nós dois ganhamos juntos!quero a minha parte no que fizemos com o nosso trabalho!quero o meu regalo, como você quer o seu![...]” “_Ah! agora não me enxergo!agora eu não presto para nada! Porém quando você precisou de mim não lhe ficava mal servir-se de meu corpo e agüentar a sua casa com o meu trabalho! Então a negra servia para um tudo;agora não presta para mais nada , e atira-se com ela no monturo do cisco![...]” ( p. 197).

Essas são suas únicas falas na obra suicidando-se logo após, diante do seu amante e da polícia.
Sob o ponto de vista negativo, sua representação está numa condição total de inferioridade: suja, fedorenta, feia, descrita como um animal, submissa, ignorante e sem emoções.
Em contraposição à forma pejorativa em que foi descrita Bertoleza, temos a mulata Rita Baiana, representante da personalidade brasileira e da nacionalidade. Foi através dela que o autor mostrou a maioria dos costumes populares: a música (pelo seu namorado Firmo), a dança, a comida e a bebida (o café e o parati), e atribuiu-lhe também inúmeras qualidades: é livre,bela, asseada, perfumada, alegre, independente, solidária, querida por todos do Cortiço, tem bons sentimentos, sabe cantar e dançar. Sua naturalidade baiana lhe conferiu sensualidade e rebeldia e, desde o momento em que aparece na obra, possui voz própia. Sob o ponto de vista negativo, a mulata é imoral, infiel, irresponsável, preguiçosa, de comportamento malicioso e pervertido, dominado pelo desejo e estímulos sensoriais.
As criadas de Miranda, Isaura e Leonor, também possuem descrições diferenciadas devido às suas etnias: Isaura é mulata, moça e tola; enquanto a “negrinha” Leonor é “lisa e seca”, tem carapinha e conhece a vasta “tecnologia da obscenidade”.
Marciana e sua filha Florinda apresentam também as mesmas características de Rita: a mãe é uma mulata respeitável e obcecada pela limpeza de sua casa, e sua filha uma morena bonita, cobiçada por seus atributos físicos e virgindade. A gravidez de Florinda desencadeou loucura e morte de sua mãe, enquanto que ela retorna à Avenida São Romão com os mesmos trejeitos de sua amiga baiana.
Essa diferenciação entre os negros e os mulatos continua presente nos personagens masculinos, porém não há uma caracterização tão evidente devido à falta de personagem negro para a contemplação.
O mulato Firmo é a figura do malandro carioca, o que também pode ser considerado símbolo do nacionalismo. Sua descrição intercala-se entre caracterização física positiva e a de personalidade negativa: é forte, perfumado, limpo, chefe de capoeira e sonha com um emprego no serviço público, porém é mulherengo, violento, vadio e cachaceiro. Junto de seu amigo Porfiro, mais escuro que ele e de cabelo “carapinhado”, tocam o samba e o choro - ritmo ligado tradicionalmente ao negro contraventor, esperto, sedutor e preguiçoso - mostrando assim mais dois costumes da cultura popular: o samba e a capoeira. Após ser assassinado por Jerônimo e seus amigos, esse acaba adquirindo a mesma personalidade de Firmo, o que o autor caracteriza como “abrasileirar-se”.
Alexandre, também mulato, encarna, entre a vizinhança a figura da lei; é policial de “queixo sempre escanhoado e um luxo de calças brancas engomadas e botões limpos na farda [...]” (p.45). Simpático e amigo de todos quando não está fardado, Alexandre tem uma porção de filhos o que pode ser interpretado como um representante da virilidade do homem “mulato” (ou será do homem “policial”?).
Nesta obra, temos um personagem sem cor: Albino, tipo afeminado que possui uma doença chamada albinismo – ausência de melanina, substância que dá cor à pele – descrevendo-o como “cor de espargo cozido”, o autor o fez representante do homossexualismo, o que era considerado na época também uma doença. Recluso por sofrer preconceito, o rapaz só saía do cortiço nos dias de carnaval, sua verdadeira paixão. A ligação carnaval e sexualidade é outra tradição cultural que o escritor não poderia deixar de fora. Sob o ponto de vista positivo, é descrito como uma pessoa caprichosa e querida por todos. Esse personagem albino também é marcado pelo Darwinismo, pois essa doença acontece com mais freqüência em pessoas negras.
Em meio a essas reflexões, podemos concluir que a diversidade racial na obra de Aluísio Azevedo é apresentada de forma estereotipada e influenciada pelas teorias vigentes no seu século, porém, o que infelizmente não podemos deixar de observar é que o racismo ainda continua, mesmo de forma disfarçada na nossa sociedade e cultura, principalmente em novelas. Em Duas Caras, novela global de horário nobre, é ainda mais evidente a discriminação racial que, mesmo sendo discutida ao longo dos capítulos, mostra os negros de forma estereotipada. Aliás, essa trama é considerada uma readaptação do livro que aqui analisamos.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Ana Z. e a fantástica descoberta da adolescência, por Claudia Eiffel

Estudar Ana Z. aonde vai você?, obra de Marina Colasanti, não é uma tarefa fácil se ao lermos a obra não voltarmos no tempo, através de nossas memórias, e visitarmos os sentimentos infantis e de transição entre infância e adolescência, pois a obra trata do rito de passagem entre essas duas fases. Então, se fizermos uma leitura linear e usarmos nossa percepção adulta somente, corremos o risco de deixar de perceber detalhes muito importantes que fazem da obra um referencial.
Para ler as obras dessa autora é indispensável o conhecimento prévio de simbolismos, já que as obras são ricas em elementos simbólicos significativos que exigem tal conhecimento.
Falando na autora, vamos às apresentações: Marina Colasanti, nasceu em 1937, em Asmara, na África, mas morou 11 anos na Itália, logo após veio para o Brasil, onde vive até agora. Trabalhou em jornalismo durante 29 anos e em publicidade durante 6 anos. A literatura, na vida de Marina, aconteceu concomitantemente. Ela brinca, dizendo em uma entrevista, que esses empregos foram seu ‘mestrado e doutorado no manuseio do texto’. Seu primeiro livro foi publicado em 1968 (Eu sozinha), e já conta com mais de 30 títulos (entre contos, crônicas, ensaios, poesia e livros infantis).
A obra que analisaremos foi publicada originalmente em 1993, pela Editora Ática, e em 1994 rendeu à autora o Prêmio Jabuti Infantil ou Juvenil.
A obra inicia com Ana Z., uma curiosa e corajosa menina, debruçada à beira de um poço para ver se existia água lá, acidentalmente ela deixa cair seu estimado colar de contas brancas. Ana então decide ir buscá-lo descendo as escadas, até o fundo do poço. Chegando lá encontra uma velha senhora tricotando um fio de água para os peixes que moravam lá, mas pela falta de água, tinham ido embora à procura de água. Ela encontra as contas brancas do colar, exceto uma: a maior e mais bonita, a senhora sugere que um dos peixes poderia ter engolido, diante disso Ana sai em busca da conta. A seguir ela encontra um mineiro que extraía ouro para fazer as escamas douradas dos peixes. Mais adiante, após encontrar dois consertadores de tumbas egípcias, ela encontra uma porta que dá para o deserto. Sua busca é sempre tentando encontrar os peixes para a fim de encontrar a conta do colar que falta. O próximo encontro é com um pastor e três cabras, com esse ela não consegue estabelecer diálogo. Numa das viagens pelo deserto, encontra um sultão e vai morar numa torre, onde ela conta histórias que ela mesma inventa. É importante esclarecer que essas histórias dela são uma mistura de elementos de várias histórias clássicas infantis. Pessoas e situações estranhas fazem o leitor viajar junto com ela numa caravana liderada por um cameleiro azul e uma cidade fantástica no meio do deserto, onde só tem areia, porém em frente a todas as casas tem barcos. Toda essa aventura é vivida em meio a um período de transição entre a infância e adolescência. Ana retorna de onde partiu e aí podemos ver que o tempo passou e ela cresceu, devido à dificuldade que ela tem de passar pelo buraco no chão da sala da tumba.
É bem possível que ao ler, já no início da leitura da obra, façamos associações à outra obra muito conhecida da literatura infantil: Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, isso se dá pelo gênero literário em que ambas estão inseridas: o fantástico. Resumidamente poderíamos conceituá-lo como aquele que brinca com as pontes entre o real e o irreal, mas para não sermos tão simplistas, optamos pelo conceito de Jacqueline Held, que diz assim:
(...) pertencerá à literatura fantástica toda a obra na qual temática, situação, atmosfera, mesmo linguagem, ou tudo isso junto, nos introduzirão num outro mundo que não ou da percepção comum, diferente, estrangeiro, estranho, que nos permite voltar, pouco a pouco, ao longo da reflexão, a esses diferentes componentes. (HELD, 1980, p.30).

A semelhança entre as obras vai além do gênero, as duas obras têm como personagem principal uma menina e ambas iniciam a história partindo para um mundo diferente e encontrando situações ou pessoas incomuns ao mundo real, a autora Marina Colassanti discorda dessa semelhança e nos convida a examinarmos mais a fundo as obras, segundo ela:

(...)há diferenças fundamentais de conceito e momento social. Alice cai na toca. Ana não cai, ela escolhe descer, ir ao fundo. Alice é levada pelos acontecimentos. Ana realiza uma busca voluntária, vai atrás do seu desejo. Alice acorda, tudo foi um sonho. Ana não precisa acordar, porque não sonhou. Ana renasce ao término da viagem, passa, como em um parto simbólico, da infância à adolescência. Ana cresceu na viagem: (COLASSANTI, 2003).

É importante salientar que é comum nosso cérebro fazer associações com o que já conhecemos. Como afirma Dias:

O primordial de uma leitura é ser significativa para quem lê, por conseguinte este irá associar a outros textos já lidos, estabelecendo assim a intertextualidade. Uma relação de diálogo é instaurada, aberta e livre, pois no tocante à leitura do textos simbólicos solicitará do leitor uma inferência, uma participação ativa na construção dos significados (DIAS, 2001, p.24)

A autora discorda quanto às semelhanças, mas admite ter sido influenciada pelas muitas leituras que foram feitas na infância, e ela atribui grande importância ao processo criativo que toma corpo através de textos bem trabalhados e que priorizam certas esferas do pensamento: “Estou atrás de outras coisas, da emoção, do trânsito livre num universo que os outros chamam de fantástico, das pontes que desse universo se estendem para o inconsciente” (COLASSANTI, 2002).
Atenta às questões feministas, Marina Colasanti afirma que o feminismo e o papel da mulher na sociedade são temas constantes nas suas obras. E a obra Ana Z. aonde vai você?, chega ser apontada pela Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, como forma de auxílio no desenvolvimento da educação das meninas em situações de risco devido à extrema pobreza e o contexto social em que estão inseridas. A obra funcionaria como uma espécie de viagem interior que, ao final, resultaria em mulheres donas do próprio destino, independentes, que fabricam sua própria liberdade. Percebemos que a obra pode auxiliar nesse processo de conscientização através da viagem da personagem, que pode simbolizar o processo de libertação, emancipação e auto-conhecimento da mulher. No entanto, é importante salientar que a obra tem a pretensão de atender a um público infanto-juvenil. E não exclusivamente a um gênero feminino.
A respeito da condição feminina, uma importante declaração da autora esclarece:
Recentemente, chegou em minhas mãos uma pesquisa francesa feita com crianças e pré-adolescentes onde se percebe claramente que os super-heróis, o jornal, os óculos, a pasta de trabalho e o carro continuam sendo símbolos masculinos, enquanto a figura da mulher ainda aparece ligada à maternidade e à função de dona de casa. E o incrível é que a maioria desses livros foi escrita por mulheres. Eu mesma tenho livros com essas características. Mas percebi isso a tempo de escrever algo como Ana Z, aonde vai você?, protagonizado por uma garota aventureira (COLASSANTI, 2002).

A literatura destinada ao público infantil é um acontecimento recente na história da humanidade, tendo surgido entre os séculos XVII e XVIII na Europa, num período em que a infância não se parecia em nada com a da modernidade. A idéia de proteção da criança era completamente diferente, as crianças na idade média, por exemplo, participavam de todos os eventos sociais (mortes, guerras, etc). Com a conquista do poder econômico pela burguesia, iniciou-se a organização da sociedade com noções de família e distribuições dos papeis familiares bem definidos. Para auxiliar as famílias na formação das crianças surge a escola que tem fundamental importância, e é nesse contexto que surge o livro infantil, como ferramenta de auxilio nessa tarefa. E é por causa deste comprometimento inicial da literatura, que até nossos dias sofremos as conseqüências de ter muita literatura infantil atendendo a fins pedagógicos, enquanto deveria divertir, ampliar horizontes. Segundo Salvatore D’Onofrio, na concepção horaciana:

(...) a arte não tem outra finalidade a não ser provocar o prazer estético. A literatura tem uma validade intrínseca e é autônoma em relação às outras atividades do saber humano e do viver social. Essa teoria, baseada no conceito de "arte pela arte", focaliza os elementos significantes e expressivos da obra literária. (D’ONOFRIO, 1995. p. 120)

No Brasil, o boom da literatura infantil se dá nas últimas três décadas, do século XX, período em que está inserida a obra que estamos analisando.
Vários elementos tornam essa narrativa interessante, um deles é, sem dúvida, o recurso literário usado pela autora na construção do narrador que alterna entre primeira e terceira pessoas dando à narrativa ora subjetividade, ora onisciência, causa no leitor um sentimento de cumplicidade com o narrador, causando uma impressão de afinidade e amizade entre os dois. A autora coloca-se no mesmo nível do leitor, o que faz com que se sinta convidado a participar da história.
Em um trecho, o narrador tenta adivinhar até mesmo os desejos da personagem:
Acompanhei Ana até aqui, entrei com ela na casa. Quando sentou-se no banco, temi que não houvesse banco nenhum e ela caísse no chão. Mas Ana deve ter desejado muito aquela casa, que a mulher também desejava, assim como a desejavam as andorinhas que abrigavam seus ninhos sob as telhas, e a roseira que lhe escalava a parede, tornando-a fresca e acolhedora. O fato é que Ana sentou-se. (...)
Tudo isso eu vi. Ainda esperei até mais tarde, até a hora de Ana ir deitar-se. Só quando tive certeza de que dormia, na cama estreita e limpa, deixei-a. E fui tratar da minha vida. (COLASSANTI, 1994, p. 32).


Observa-se que os símbolos estão presentes em toda a obra, apresentaremos alguns: Acreditamos que o poço seja uma espécie de túnel de passagem que Ana atravessa em busca de seus desejos. O fato dela descer ao fundo do poço para buscar as contas do colar, é interpretado de diversas formas pelos leitores; alguns acreditam que o início da adolescência é esse período em que descemos no fundo do poço dos nossos sentimentos, onde tudo é intenso, de forma que possamos construir nossa personalidade, alguns abandonando velhos conceitos impostos pela família, escola, religião, etc. e outros buscando novos. A escuridão que acompanha Ana nos primeiros capítulos do livro, traduzem bem esse sentimento de ansiedade e indefinições na busca de uma nova fase da vida. Grande parte da história se passa no deserto onde Ana procura os peixes, que, por sua vez, buscam água, a água simboliza a fonte de vida. O encontro com o pastor que não a compreende e por quem não é compreendida é a descrição dos conflitos que os adolescentes passam em relação ao diálogo. A última, e acreditamos mais significativa das imagens simbólicas da obra, é a passagem dela pelo buraco da sala que simboliza o parto, o nascimento dela para uma nova vida, a idade adulta. Um trecho relata de forma extraordinária a semelhança:

(...) a cabeça sai primeiro, que é o mais fácil. Mas os ombros entalam, são largos demais. Ana se espreme, se deita, tenta de toda maneira, enfia um braço pela abertura, para puxar-se com a mão já do lado de lá(...) Porém, aos poucos, como se a parede tivesse pena dela e cedesse passagem, Ana vai avançando rumo ao outro lado. Até que, livres os ombros e os braços, pode parar um instante para descansar, respirar com força e, numa última arrancada, passar pelo resto do corpo para dentro da mina (COLASSANTI, 1994, p. 78-79).

As muitas situações simbólicas vividas por Ana, que estão no livro, só têm sentido por estarem inseridas na viagem ao interior do poço, que pode ser traduzida como a viagem pelo interior de nós mesmos. Simbolizando a fase do amadurecimento da infância para a fase adulta.
É possível que cada leitor possa fazer uma interpretação diferente do texto, mas todos terminarão a leitura convencidos de que a viagem era necessária e inevitável para Ana e para cada um de nós.

REFERÊNCIAS
COLASSANTI, M. Ana Z. Aonde vai você?. 5. ed. São Paulo: Ática, 1994. (Série aberto)
D’ONOFRIO, Salvatore. Teoria do texto 1: Prolegômenos e teoria narrativa. São Paulo: Ática, 1995.
________ disponível em: http://rbep.inep.gov.br/index.php/RBEP/article/viewFile/351/355. acesso em 30.11.2007
________ disponível em: http://www.record.com.br/entrevista.asp?entrevista=56 acesso em 30.11.2007

________ disponível em: http://www.ricardoazevedo.com.br/Artigo05.htm, acesso em 30.11.2007.

HELD, J. O imaginário do poder. As crianças e a literatura fantástica. São Paulo: Summus, 1980.